quinta-feira, 26 de abril de 2012

Divagações Gramaticais


            Minha mãe é professora de alemão, uma língua verdadeiramente mágica, se um pouco complicada, então, a maioria do que escrevo hoje, eu devo a ela. Minha mãe, não a língua alemã. E também porque comprei uma entrada anual para as piscinas públicas de Karlsbad, Waldbronn e Remchingen
            Em alemão existem três artigos, o masculino der, o feminino die e o terceiro das. Estes artigos são por sua vez declinados em quatro casos: o nominativo, o dativo, o acusativo e o genitivo, dependendo da situação em que o sujeito coloca o substantivo. Eu uso “sujeito” como pessoa, não necessariamente a função sintática da palavra, mas o sujeito pode ser o sujeito da oração...
            Para descobrir o caso de uma situação existem perguntas. Pense em Sherlock Holmes e nas perguntas que o nobre morador da Baker street 221b faz: quem? como? de quem? o quê? porquê? por quê? aonde? A resposta para tais perguntas se encontra nos casos. Cada pergunta corresponde a um e somente um (com certas exceções que não serão discutidas agora...) caso. 
Para as declinações dos artigos existe uma tabela onde um sujeito pode cruzar o artigo e o gênero e resultar com a declinação correta para a frase. A maioria das pessoas que aprende alemão decora essa tabela por partes, primeiro o dativo, depois o acusativo. O genitivo, infelizmente, está caindo em desuso...
Um sujeito que fala alemão do berço descobre que existe uma tabela com mais de dez anos. Nessa altura do campeonato essa pobre alma já declina os artigos intuitivamente. Um professor de alemão que indague pela razão que tal sujeito tenha aplicado uma declinação será surpreendido pela resposta. O sujeito dirá que a aplicação da declinação se deu, pois Deus assim o quis (já me aconteceu...) ou porque o sujeito sempre usou aquela declinação para aquele tipo de situação. Assim, uma pessoa que aprendeu alemão como língua estrangeira pode ser reconhecido por falantes nativos: declinações perfeitas. Ainda está para nascer o alemão que sabe declinar corretamente, Goethe que me perdoe.
De qualquer maneira, a declinação não costuma ser o problema. O mais difícil sempre foi e sempre será: descobrir o artigo. Não porque os artigos são mais do que estamos acostumados. Normalmente o artigo também é definido por feeling. Algumas coisas simplesmente não soam bem quando ditas em voz alta com o artigo incorreto.
            Este não é o caso de Freibad (banho livre, literalmente ou piscina pública, para os normais). Para ser sincera, enquanto eu escrevo este post, com acesso a um dicionário, eu ainda não descobri se Bad é der ou das. O que poderia ser um problema na hora da compra da entrada anual para as piscinas públicas da região. 



                 Porém como todo bom estudante da língua alemã sabe, não existem limites para as maravilhas apresentadas como soluções para esse problema. Uma palavra alemã pode ser constituída de vários substantivos e verbos substantivados justapostos. Uma frase em alemão pode ser composta por tantas orações, que ela é do tamanho de uma página, e ainda assim é inteligível. Assim nascem horrores como "Donaudampfschiffahrtgesellschaftelektrizitäthauptbetriebswerkbauunterbeamtengesellschaft" , trabalhos de Kant e os meus parágrafos compostos por ou uma frase muito longa ou vinte frases nominais e curtas. 

 O meu dilema foi muito rapidamente resolvido. Eu simplesmente juntei as duas palavras que tinha em mãos, Freibad e Jahreskarte, e formei Freibadjahreskarte, cujo artigo definitivamente é die pois, aqui segue uma das poucas regras gramaticais alemãs que eu conheço, todas as palavras que terminam em E são femininas. Com poucas exceções (Name, Schnee, Buchstabe). Porque toda regra gramatical alemã tem exceções. Assim é possível que eu escrevo esse blog em um computador, que pode ser der ou das, enquanto como um pão (das Brot, weil das Boot) com nutella (der/die/das nutella).

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Chuva

Quando chove no Brasil você sabe com dois dias de antecedência. O tempo fecha, as nuvens estacionam pretas e pesadas de água. A humidade do ar aumenta tanto que respirar se torna difícil. A variação na pressão barométrica causa dores de cabeça baroreflexas. Você acorda de manhã e pensa: “Hoje vai chover, não vale a pena sair da cama.”. A previsão do tempo na maioria das vezes é correta, previsível e, o mais importante, confiável.
Na Alemanha a coisa não é bem assim. Quando chove na Alemanha você sabe quando já é tarde demais e você já saiu de casa sem guarda-chuva, com o tênis branco e óculos de sol.

Hoje, por exemplo, eu estava lendo o meu livro embaixo de uma árvore, a minha árvore, a árvore na floresta com um banco perfeito para eu me deitar e produzir Vitamina D e fixar cálcio (para os leigos: pegar sol). Lá estava eu contente, porque no livro o universo é criado por música e eu sei que a expansão do universo real cria um som que baleias classificariam como música, e começa a chover. Um minuto o céu estava azul e claro e no seguinte eu estava no meio de uma tempestade.

Em situações como essa você descobre várias coisas. O meu tênis a prova de neve, também é a prova de chuva, infelizmente ele não resistiu aos poderes umidificantes de uma poça. O casaco vermelho que eu ganhei de natal é surpreendentemente repelente à água. Uma floresta na chuva tem o mesmo cheiro que uma cidade na chuva. O molho agridoce do restaurante chinês de Langensteinbach é surpreendentemente picante. Langensteinbach tem um restaurante chinês, com um dono tailandês que é casado com uma turca...

A chuva primaveril não durou muito. Chegou e passou em menos de uma hora. Exatamente o tempo que eu precisava para chegar ao restaurante, fazer o meu pedido, comer metade da porção enorme, pedir uma quentinha e descobrir mais um simpático habitante de Langensteinbach. E que no futuro próximo irei gastar uma fortuna tentando descobrir o meu item preferido do cardápio do Asian Wok.


Ah sim! O meu nome na porta do quarto agora está propriamente apresentado.


terça-feira, 3 de abril de 2012

That moment

Quando você viaja durante os seus três dias de folga, visita dois amigos em duas cidades diferentes enquanto a sua própria cidade está há duas horas, no trem atrasado, de distância.

Quando você prepara a sua primeira refeição sem supervisão da sua mãe ou irmã. E não só não queima a dita cuja como ela fica boa...
Quando você faz encomendas pela internet e elas chegam em menos tempo do que esperado. Quando o correio funciona, quando você sabe quando o carteiro vai aparecer, qual o nome dele, da mulher e dos filhos. Quando você encontra o seu carteiro no caminho para a Dönerbude.


Quando uma viagem para o outro lado do país é considerada longa porque dura um pouco mais do que cinco horas. Quando você recebe uma ligação de um número desconhecido e responde o telefone com o seu sobrenome em vez de “alô?”. Quando o toque de celular mais comum à sua volta é Nokia Tune. Quando o seu toque não é Nokia Tune e todo mundo te olha estranho no trem.

Quando as cerejeiras do outro lado do deque estão em flor. Quando você acorda por causa do barulho dos pássaros do lado de fora do seu quarto. Quando você encontra o banco perfeito para ler na floresta. Quando essa mesma floresta passa de marrom e cinza para verde e cheia de esquilos. Quando o sol só se põe depois das oito. No futuro, quando o sol só vai se por as nove.
Quando você usa havaianas fora de casa pela primeira vez e morre de frio nos pés. Quando você passa a converter todo aquele cálcio consumido com a água com os primeiros raios UV do ano. Quando o céu está azul e o mercúrio não passa dos 20° nos termômetros. Quando o céu azul combina com a música no seu Ipod. Quando o seu editor de texto não reconhece a palavra “Ipod”.


Quando a paciente do quarto 20 te pergunta: “Porque você usa o anel de noivado no indicador?”. Quando o paciente do quarto 38 sabe que você não usa um anel de noivado no indicador, assiste Harry Potter em BluRay no computador e te mostra um comercial de Star Wars. Quando o filho adolescente de uma enfermeira no hospital te dá o jornalzinho bimestral dos tolkenianos alemães. Quando você redescobre a perfeição que é a vida dos Hobbits.  Quando a sua porta é verde, mas não é redonda.



                              Quando a ficha cai que você está na Alemanha.