Minha mãe é professora de alemão, uma língua verdadeiramente mágica, se um pouco complicada, então, a maioria do que escrevo hoje, eu devo a ela. Minha mãe, não a língua alemã. E também porque comprei uma entrada anual para as piscinas públicas de Karlsbad, Waldbronn e Remchingen.
Em alemão existem três artigos, o masculino der, o feminino die e o terceiro das. Estes artigos são por sua vez declinados em quatro casos: o nominativo, o dativo, o acusativo e o genitivo, dependendo da situação em que o sujeito coloca o substantivo. Eu uso “sujeito” como pessoa, não necessariamente a função sintática da palavra, mas o sujeito pode ser o sujeito da oração...
Para descobrir o caso de uma situação existem perguntas. Pense em Sherlock Holmes e nas perguntas que o nobre morador da Baker street 221b faz: quem? como? de quem? o quê? porquê? por quê? aonde? A resposta para tais perguntas se encontra nos casos. Cada pergunta corresponde a um e somente um (com certas exceções que não serão discutidas agora...) caso.
Para as declinações dos artigos existe uma tabela onde um sujeito pode cruzar o artigo e o gênero e resultar com a declinação correta para a frase. A maioria das pessoas que aprende alemão decora essa tabela por partes, primeiro o dativo, depois o acusativo. O genitivo, infelizmente, está caindo em desuso...
Um sujeito que fala alemão do berço descobre que existe uma tabela com mais de dez anos. Nessa altura do campeonato essa pobre alma já declina os artigos intuitivamente. Um professor de alemão que indague pela razão que tal sujeito tenha aplicado uma declinação será surpreendido pela resposta. O sujeito dirá que a aplicação da declinação se deu, pois Deus assim o quis (já me aconteceu...) ou porque o sujeito sempre usou aquela declinação para aquele tipo de situação. Assim, uma pessoa que aprendeu alemão como língua estrangeira pode ser reconhecido por falantes nativos: declinações perfeitas. Ainda está para nascer o alemão que sabe declinar corretamente, Goethe que me perdoe.
De qualquer maneira, a declinação não costuma ser o problema. O mais difícil sempre foi e sempre será: descobrir o artigo. Não porque os artigos são mais do que estamos acostumados. Normalmente o artigo também é definido por feeling. Algumas coisas simplesmente não soam bem quando ditas em voz alta com o artigo incorreto.
Este não é o caso de Freibad (banho livre, literalmente ou piscina pública, para os normais). Para ser sincera, enquanto eu escrevo este post, com acesso a um dicionário, eu ainda não descobri se Bad é der ou das. O que poderia ser um problema na hora da compra da entrada anual para as piscinas públicas da região.
Porém como todo bom estudante da língua alemã sabe, não existem limites para as maravilhas apresentadas como soluções para esse problema. Uma palavra alemã pode ser constituída de vários substantivos e verbos substantivados justapostos. Uma frase em alemão pode ser composta por tantas orações, que ela é do tamanho de uma página, e ainda assim é inteligível. Assim nascem horrores como "Donaudampfschiffahrtgesellschaftelektrizitäthauptbetriebswerkbauunterbeamtengesellschaft" , trabalhos de Kant e os meus parágrafos compostos por ou uma frase muito longa ou vinte frases nominais e curtas.

O meu dilema foi muito rapidamente resolvido. Eu simplesmente juntei as duas palavras que tinha em mãos, Freibad e Jahreskarte, e formei Freibadjahreskarte, cujo artigo definitivamente é die pois, aqui segue uma das poucas regras gramaticais alemãs que eu conheço, todas as palavras que terminam em E são femininas. Com poucas exceções (Name, Schnee, Buchstabe). Porque toda regra gramatical alemã tem exceções. Assim é possível que eu escrevo esse blog em um computador, que pode ser der ou das, enquanto como um pão (das Brot, weil das Boot) com nutella (der/die/das nutella).


