domingo, 7 de agosto de 2016

Carta aberta à Bela Gil

Cara Bela,

Também sou nutricionista (me perdoe, mas eu sou da parte analítica da nutrição. Na minha opinião vida é química e química é vida.) e admiro muito o seu projeto de educação nutricional. É um empreendimento muito louvável e necessário no mundo atual. É incrível a sua aparente facilidade em apresentar novos tipos de alimentos e dietas à sua vasta audiência. O seu compromisso com alimentação saudável e livre de agrotóxicos modificou de maneira real e sensível a vida da população brasileira. Isso é incrível, parabéns!

Só há um pequeno detalhe. A demagogia de alguns de seus argumentos me incomoda profundamente. A gota d’água foi ‘pãozinho de fermentação natural’. NÃO EXISTE FERMENTAÇÃO ARTIFICIAL!

Ghee não é nada mais que manteiga clarificada! Os alemães chamam de Schmalz e fritam os famosos Schnitzel nele!

Quinoa costumava ser um cereal de fome dos indígenas andinos que agora sofrem para obter esse ‘cereal da moda’. Sabe o que também é bom? MANDIOCA!

Painço ou milhete não é um ingrediente brasileiro! É produzido em regiões semi-áridas da Ásia e da África (Índia, Mali, Nigéria. Sabe, países onde fome é endêmica!) onde é um alimento básico. Pense na direção: arroz, feijão e farinha de mesa!

Shot de grama para nutrir o sangue? ‘NUTRIR O SANGUE’?! Tu tá de sacanagem! Eu sei que você teve aula de fisiologia durante a graduação, de onde saiu nutrir o sangue?? Pense nos seus pobres professores de fisio!

O que vem a ser um tipo de frutose que não é bem absorvido pelo corpo? Porque eu só conheço dois tipos de frutose a D- e a L-Frutose e ambas são absorvidas pelo GLUT-5 e metabolizadas independente de insulina. Da onde saiu a sua frutose especial para a flora intestinal? E aonde ficaram os seus conhecimentos de química e bioquímica da graduação? Você não quer dizer: fibras solúveis?

Qual é o seu problema com leite de vaca?! Milhares de anos de adaptação para a lactase persistir não foram à toa! O leite é um alimento quase completo e ACESSÍVEL! Acredite ou não, existe leite de vacas felizes! Não me venha começar com dietas “livres de”. Já cansei antes do glúten!

Bertalha? Sério? Um espinafre especial, porque é da Índia e por isso custa cinco vezes mais? Sabe o que também é bom, saudável e cresce como se fosse erva daninha, por que muitas vezes é uma erva daninha domesticada? CRUCÍFERAS*!

Quer saber, cansei! Que tal mais receitas com “de tudo um pouco” que tem na geladeira. Todo mundo gosta de dicas para se livrar dos restos e diminuir desperdício. Que tal apresentar mais fazendas orgânicas e o trabalho de pequenos agricultores? Que tal fazer mais projetos no estilo “farm to fork” que você gosta tanto? Que tal incentivar o aleitamento materno? Que tal trabalhar a introdução alimentar para crianças? Que tal continuar incentivado pessoas a abrir mão do refrigerante? 

Que tal lembrar que o açúcar das frutas não é só frutose, é sacarose: uma mistura 1:1 de glucose e frutose, e que é a glucose desses dois que faz mal? “Your work needs work”!

Uma última coisa, adorei o seu churrasco de melancia!

Cordialmente,

Eu

*Para o amiguinho leigo: crucíferas, ou mais corretamente a famíla das Brassicaceae, vulgo a famíla dos repolhos: brócolis, couve flor, couve, rúcola, rabanete etc...

segunda-feira, 7 de março de 2016

Dos Sete Pecados Capitais: A Ira

Eu tenho um quadro no meu banheiro com os dizeres:

“Ira demole alegria, rouba a bondade da minha mente, me força a dizer coisas terríveis.
Superar a ira traz paz de espírito, leva a uma mente sem arrependimentos.
Se eu derrotar a ira, vou ser agradável e amada por todos.”

A intenção é me lembrar disso, todo dia de manhã enquanto eu escovo os dentes. Hoje eu percebi que a leitura foi um pouco negligenciada ultimamente. Hoje eu fiz algo (na verdade deixei de fazer algo) por causa de raiva. Não foi nada terrível, eu só não troquei de grupo com uma menina... Mas foi por raiva, mesquinharia, cólera, zanga, enfim: sentimentos baixos.
Existe uma história por trás: Duas semanas atrás eu descobri que essa menina ri de mim, faz graça das minhas camisas, me acha infantil, blá blá blá. O problema é que eu sempre achei que ela era muito simpática, que quando ela via as minhas blusas ela estava rindo das piadas de duplo sentido, não de mim. Tiveram que me contar que ela estava fazendo graça de mim (inocentemente me contaram, acharam que eu já sabia.). Segue flashback dos tempos de escola. Todo mundo já passou por isso. Na escola eu tinha quem me defendesse. Eu percebi que agora que eu sou grande eu teria de me defender sozinha (só ainda não sei como...)
Volta pra hoje. Divisão de grupos para a prática. O meu trio se inscreve para o Grupo 8, dia curto na 5ª (só até as 15h, yeey!), a menina vem pra frente, quer trocar conosco o dia curto. Agora: não seria o fim do mundo ter um dia curto na 4ª em vez de na 5ª, mas eu não quero fazer nenhum favor pra essa menina. E ela não quer trocar para ir trabalhar ir ao médico. Ela quer trocar para ir dançar! Detalhe, ela não fala comigo, fala com as outras duas no grupo que desconversam (foram elas que tiveram que me explicar que a menina ria de mim...). Menina olha para mim e pergunta: O que a Tess acha de trocar? Sem nem pestanejar eu digo que não. Que eu não estou afim.
Cheguei em casa, fiz almoço, lavei a louça, preparei a prática de amanhã. Quando fui pegar água li o quadro pela primeira vez em dias: percebi que tinha deixado a raiva levar a melhor de mim. Desde a semana passada estava sem saber lidar com aquiela situação. Eu tinha deixado juntar um nozinho verde de bile e ira no fígado (criadouro da melancolia e decontentamento) desde o momento flashback, consequentemente as semanas desde então não foram preenchidas de felicidade e positividade. Ler o quadro me fez lembrar que eu não quero ser igual à menina, eu não quero ser ignorante e baixa. Eu não quero derivar a minha felicidade do sofrimento de outros. Eu fui lembrada (não só pelo quadro, mas pelo fim de semana recheado de amigas espertas, lindas e inteligentes) da antiga e nobre arte do desapego. Essa criança lembrou que o que foi, já passou e o que vem, vai ser melhor. Essa criança promete tentar não esquecer isso tão cedo.
Amiguinho, eu sei que o post não foi engraçado, que não precisava disso tudo numa segunda-feira. Amiguinho, da próxima vez melhora! Toma aqui um Toblerone pra melhorar.

sábado, 27 de fevereiro de 2016

Luxo e carnaval

Outro dia fui conversar com os orientadores do meu TCC. Eles me contaram que o ditocujo na verdade é só um relatório um pouquinho maior. Antes de poder escrever o TCC eu tenho que passar um mês no laboratório, escrevendo relatórios (porque a dupla é uma folgada...) todo dia, de assuntos diferentes. Obrigada pelo treino.
Pro TCC eu vou fazer uma (várias, várias!) HPLC/MS. MS significa espectrometria de massa. Eu lembro que na minha universidade no rio nós compramos um espectrômetro quando abriu o Mestrado. Era só pros mestrandos, o pessoal do bacharelado não podia nem entrar naquele laboratório. Da primeira vez que ligaram a máquina ela quebrou: voltagem errada. (Cara, que merda! 10 mil dólares pelo ralo, porque esqueceram de ler o manual!).
Aqui na Alemanha eu vou poder usar essa máquina pra escrever o meu TCC. Não sou nada no grande espectro das coisas universitárias e vão por uma máquina dessas nas minhas mãos. Durante as aulas práticas eu (não o professor na frente da turma, euzinha e minha dupla) extraímos DNA e fazemos PCR dele, fazemos fotometria, usamos batches enzimáticos, fazemos design de primers e fazemos imunoessays (sabe quanto custa um batch de anticorpos?!). 
Anteontem a dupla pipetou errado e nós tivemos que recomeçar a prática. Três enzimas diferentes pra reagir no tubinho. No Brasil, o meu amado primo, um Professor Doutor (PhDeus, mas é M.D.) tem que mendigar uma enzima. E eu aqui com água destilada saindo na torneira. Luxo é isso! Água destilada que sai da parede. O resto é carnaval!

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Quaresma

Vou ser bem sincera: esse blog nunca vai ser mantido nas condições em que eu o imaginava no momento de sua criação. Ainda mais: o assunto principal de longe não vai ser coisas alemãs porque eu percebi que a Alemanha nem é tão diferente assim do Brasil (com exceção da internet que é infinitamente melhor, mais rápida e mais supervisionada e da TV aberta que na verdade é paga...). Digo mais: post com foto? Só se eu tiver com muuuuuito saco.
De qualquer maneira: Quaresma né... Ano passado tentei, fiquei um mês e meio sem comer carne. Não pegou. Foi a páscoa chegar que eu caí de boca e continuei comendo carne quase todo dia (a nutri interna se desespera e fala: gente isso não é necessário!!). Na vã tentativa de melhorar o meu relacionamento com a carne esse ano e tentei de novo. Botei álcool na lista também, porque né... Necessário e tals...
Amiguinhas acham uma ideia legal Coleguinhas me perguntam: “você ainda tá nessa de jejuar?”. Eu não tô jejuando coleguinha e sim, só saio dessa, dia 27 de março... te juro que eu acho que os alemães não sabem contar até quarenta.
Agora vem o verdadeiro motivo do post: ontem (semana passada, mas o sentimento permanece) tava eu, pequena eu, insignificante eu indo à faculdade com a amiguinha. Amiguinha queria saber como está indo a quaresma quando me cai a ficha: gente faz dias (DIAS!!) que eu não tenho a menor vontade de comer carne. Mesmo assistindo milhões de vídeos de receita no FB (a enorme maioria com carne, que moléstia...)

Era só isso mesmo que eu queria dizer: a Quaresma tá pegando.