terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Schlüssel zur Fröhlichkeit

Schrebergarten são pedaços de terra que o cidadão alemão aluga para brincar de jardineiro, plantar comida (árvores de geleia ou de bolo/torta) e beber cerveja durante o verão. Wladimir Kaminer é um autor russo radicado em Berlim que escreve críticas sociais envolvidas em ironia e comédia. Em um de seus livros ele compara a sua experiência no Schrebergarten da família durante a copa de 2006 e o ano que H.D. Thoreau passou na floresta. Engraçado porque ele toma uma experiência profundamente filosófica, preenchida de intenções e noções elevadas e compara com uma tarde de bebedeira no subúrbio de Berlim. “O que isso tem a ver com o blog?” se pergunta o sagaz leitor.
Bem, a mãe veio visitar e decorou o apartamento da criança. Necessário: peregrinação ao IKEA, força nas pernas para andar todo o IKEA e força de vontade para não sair comprando o estoque completo da loja de decoração (hem, estilo de vida, hem) sueca. A criança ganhou pratos, cortinas, cobertores e travesseiros, abajures, um escorredor, um sofá e um tapete. Tudo devidamente empacotado e acompanhado de um manual de instruções. Ela agora tem uma palheta de cores para a sua decoração. Com o tapete também chegou a convicção de “estar adulta” na cabeça da criança.  O tapete foi a gota d’água, por assim dizer.

Isso é tudo muito interessante, mas não é o objetivo do exercício. Para quem não sabe móveis do IKEA são extremamente simples de montar e só necessitam de uma ferramenta: a mítica chave do IKEA (e o, igualmente lendário, manual de instruções). Na saída do IKEA, onde é possível contratar o transporte, instalação ou a devolução das suas compras está pendurando um enorme cartaz amarelo. De longe a criança só conseguiu ler as palavras (em alemão, mas vamos fingir...): a chave para a felicidade.

Por um instante de delírio, provavelmente provocado pelas horas de perambulação no IKEA, a muita comida sueca oferecida dentro do IKEA (Kötbulaaaaaar!!!!!!!) ou a felicidade de conseguir decorar um apartamento de dois quartos por menos de mil reais, a criança realmente acreditou que uma pobre alma sueca havia encontrado a verdadeira (e derradeira) chave para a felicidade. Paralisada pelas visões do que havia de vir e animada para ler as palavras que mudariam o seu futuro a criança se aproxima do cartaz e lê, esperando algo completamente filosófico, preenchido de noções elevadas que irão mudar a sua vida. Em vez disso, ela se depara com os dizeres: guarde a sua chave IKEA e a use regularmente para apertar os parafusos em seus móveis. Assim eles continuarão seguros e estáveis durante mais tempo para lhe oferecer conforto.
A criança leu o cartaz esperando Thoreau e teve de se satisfazer com Kaminer. Leitores assíduos do blog saberão que autora não tem nada contra filosofia barata de botequim e considera muito as máximas dos bêbados. Afinal de contas o conselho oferecido no cartaz não é indigno de nota e realmente acompanhará a criança em seus futuros empreendimentos mobiliários.
Kaminer também comenta em seu livro que as professoras do colégio já sabem não se queixar aos pais do mau comportamento das crianças. Afinal de contas, a maior parte de sua conduta a criança deve aos seus pais, o resto foi aprendido com Harry Potter e O Senhor dos Anéis. Eu considero essas palavras profundamente verdadeiras, e se os axiomas absorvidos desses eminentes livros procedem, não há nada de errado em tomar uma máxima do IKEA e adotá-la para si.

Assim, deixo o caro leitor com o seguinte conselho: não deixe os parafusos dos seus móveis afrouxarem. 

Até a próxima!

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

domingo, 17 de novembro de 2013

Morgens wie ein Kaiser

Agora no comecinho do “horário de inverno” o sol está nascendo bem cedo, então mesmo não querendo eu acordo cedo. Sabe como é né... o quarto não tem cortinas nas janelas enooooormes e a vontade para ir na casa de móveis suecas comprar cortinas, também não dá as caras. E mesmo com cortinas eu acordaria cedo, por dois motivos. 
Primeiro eu tenho aulas às 8 da manhã de 2ª a 5ª e eu gosto de apertar o botão soneca do despertador. Além disso eu me acostumei a tomar café da manhã. Eu acordo, ligo o Wasserkocher, escovo os dentes, preparo a minha xícara de chá e a minha tigela de Müsli e volto pro quarto com o meu “desjejum”. Lá eu me envolvo no cobertor, ligo o computador e leio notícias/ ouço músicas/ ouço um capítulo de um livro/ vejo um episódio da série de ontem de noite. Depende do humor. Por exemplo: eu nunca leio notícias nas segundas...        
O esperto leitor se pergunta: por que ela perde preciosos minutos (quase uma hora inteira!) de sono com esse teatro todo? Os motivos são vários e ecléticos. Eu demoro a acordar e eu descobri que se o meu cérebro tem a chance de sentir Family Guy antes de ter que lidar com matemática, ele, muito agradecido, aceita as aulas de cálculo com menos reclamações e silêncios constrangedores.
            Segundo: eu gosto de chá preto, que tem muita cafeína, então eu não poderia tomar o meu chá de noite, antes de dormir. Eu também gosto de Buttermilch (leitelho para os que passaram pelo Alexandre Porte em Composição), uma bebida que não combina muito com o ensopado de carne no almoço, logo, outra bebida que eu tenho que tomar de manhã.  Uma bebida muita prática, pois pode ser comprada em caixinhas (tipo de toddynho) e bebida no ônibus à caminho da faculdade em dias que o botão soneca é ativado repetidas vezes...
            (A criança cresce, sai de casa, muda de continente e continua "n'O Toddynho nosso de cada dia nos dai hoje", tsctsc)
            Müsli, a minha penúltima razão para acordar cedo. O cereal matinal do Alemão, um amontoado de cereais, nozes e frutas que quando misturados com leite ou iogurte rendem uma gororoba que é, sem exageros, a epítome da alimentação humana civilizada. Ao mesmo tempo em que é crocante a sua mastigação não é estritamente necessária. Não é doce nem salgado, não dá trabalho de fazer, pode ser preparado em uma combinação quase infinita de sabores (inclusive chocolate!) e é saudável sem ter gosto de saudável (só aparência...).
            E, finalmente, a fim de me tornar realmente um indivíduo, um Mensch, eu preciso assinar um contrato social, em que eu aceito que de manhã eu comerei como um imperador, de tarde como um rei e de noite como um mendigo. Morgens wie ein Kaiser. Raramente (sexta e sábado) as minhas refeições se dão nessa ordem, e com essa riqueza.



Mas não custa nada tentar...

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Kurzgeschichten: Verão

Uma rapidinha para não desacostumar a postar (de novo...).
As minhas pessoas (sim, são minhas, sou possessiva ao extremo) no Rio postando fotos de termômetros, reclamando do calor, comentando que já está fazendo 40°C (exagero, são só 38°C...) e eu aqui...
-1°C de manhã, três camadas de roupa, sendo um delas térmica, tomando chá quente, pesquisando receitas de sopa e podendo usar o peitoril da janela para gelar as minhas garrafas, quando o espaço na geladeira acaba.
Até a próxima!

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Putzen


A pessoa tem as sextas feiras e cada segunda quarta feira livre. A pessoa usa as quartas livres para fazer o dever de casa, afinal de contas, na quinta ela só sai da faculdade às 18:45, que desastre se ela perde o ônibus de 18:50...
As sextas feiras a pessoas podia usar para fins de fim-de-semana. Para aprender a cozinhar, para fazer brigadeiro, tricotar, desenhar, escrever no blog... em vez disso as sextas feiras viraram dia de faxina. A pessoa acorda cedo, mesmo sem despertador (oh que moléstia!!), desce para o subsolo, onde ela põe a roupa para lavar, sobe, aspira o quarto, limpa a geladeira e o banheiro, guarda a roupa que está no varal desde a semana passada, lê dois capítulos do atual livro de cabeceira, desce, pega a roupa a limpa e (o horror!) pendura no varal.
Mais ainda: a pessoas comprou um aspirador de pó! A pessoa adora o aspirador de pó novo.  O aspirador de pó é o orgulho da pessoa. A pessoa cresceu.

Você sabe que a idade adulta se aproxima quando o programa de sexta feira é faxina. Você sabe que sua mãe te criou certo quando você não espera as meias limpas acabarem para lavar a roupa. Você sabe que mora sozinha e tem responsabilidades quando se conforma com a sexta. Você nem reclama mais quando tem que pendurar roupa. Oh, os sinais da idade avançada!
           
Nas sextas feiras a pessoa também aproveita e vai fazer compras no supermercado grande, que é mais longe. Durante a semana ela compra a Apfelschorle e a Buttermilch no Supermercado do outro lado da rua. A pessoa está participando do programa de fidelidade de dois supermercados diferentes... a pessoa está adulta, porque já sabe por qual faca e qual panela vai trocar os pontos fidelidade quando a cartela estiver completa.

            A pessoa está procurando receitas. Talvez na semana que vem ela se aventura a fazer gurjão de frango para comemorar os amigos que tem acesso a comidas de boteco (por favor roubem a receita do Alfa!!).
Por hoje é tudo pessoal!

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Em Potsdam

Agora eu cheguei mesmo. As malas estão abertas, o que não necessariamente significa que elas estão desfeitas, e FINALMENTE após duas longas semanas esperando, eu tenho acesso à internet de novo!! (glória, aleluia, amém!) (Sim, internet tem a mesma importância que religião na minha vida!)
Então eu prometo que amanhã ou depois eu volto a postar no blog. 
Enquanto o dia não chega, caros leitores fiquem com essa mensagem, de mim, para vocês: o outono é lindo...

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Trens


O irmão da autora adora aviões. Ele conhece aeroportos, sabe quais são as melhores rotas para voar, entende o jargão falado na torre.  Quando viaja, ele vai ao aeroporto da cidade fotografar os aviões, um hobby muito interessante chamado spotting (as fotos dos aviões são do irmão!). Quando criança o seu brinquedo favorito era um avião azul, durante a adolescência evoluiu para os simuladores de voo. A autora acredita que se um dia o piloto realmente sumisse, o irmão seria capaz de pousar o avião com o mínimo de instrução da torre e danos psíquicos aos passageiros.
Tendo dito isto; a autora morre de medo de avião, para eterno embaraço do irmão. Não é só de avião que a autora não gosta, dentre os seus medos também constam: túneis, salas apertadas e/ou escuras, metrôs, elevadores, labirintos e baratas. Não que ela seja medrosa, um dos seus sonhos de consumo é ir fazer bungee jumping na Nova Zelândia. Durante anos ela andou sozinha de noite pelas ruas do Rio de Janeiro, mas toda vez que se deparava com uma barata durante essas caminhadas, berrava que nem uma louca e saia correndo.
(Se a autora for questionada, ela dirá que avançou muito na questão “baratas”, oras daquela vez que viu uma no corredor, em vez de gritar histericamente para que o irmão matasse aquela criatura horrenda, simplesmente fechou a porta do quarto e se negou a sair, apesar de estar com sede.)
A razão para esse lero lero todo é a seguinte: hoje eu fui à Potsdam resolver burocracias na universidade. Eu viajei de trem, é claro. Existe algo de imensamente prazeroso ver a paisagem passar a quase 300km/h pela janela e ao fundo ouvir o leve zunido do poderoso motor (diesel ou elétrico??) do Inter City Express. ICE, ice, very, extremely cool, ou seja, trens = muito bom.
Os alemães podem reclamar da Die Bahn, realmente, os trens atrasam com extrema frequência, alguns vagões são velhos, os trabalhadores são mal humorados e as obras são intermináveis. A isso eu respondo, os atrasos são anunciados, você pode pedir para receber mensagens quanto ao status do seu trem. Na maioria dos casos, se o seu trem atrasa, a sua conexão ou uma equivalente, estará à sua espera. Alguns vagões são velhos, alguns TRENS são velhos, mas para quem testemunha o drama que é andar de trem na SuperVia ou tenta pegar o metrô no Rio, não se incomoda se banco do trem não reclina. As obras são intermináveis porque essa é a definição de manutenção, e eu prefiro construir linhas de trem a estradas, por motivos puramente pecuniários (também, a autora não possui carteira de motorista, hem, hem).
Quanto aos trabalhadores mal humorados, não tenho defesa. É uma espécie de alemão extremamente caricata, que não fala inglês, usa ou um bigode enoooorme ou um coque alto (dependendo da idade ambos) e aparenta constate pressa. Talvez isso se deva ao constate atraso da linha. Porém eu posso dizer que eles sempre foram prestativos (mesmo que a contra gosto) quando eu me perdia durante as minhas perambulações pela Alemanha. Se eu estou em um fim do trem e eu pergunto a funcionária aonde está o vagão X (que eu bem sei está no outro fim) eu sei que ela vai esperar até que eu alcance o um vagão para permitir que a viajem prossiga. E, por fim, eu sei que trabalhar com gente é extremamente exaustivo. Por isso eu perdoo o Schäfner que grita no meu ouvido até eu acoradar: “FAHRKARTEN! BITTE FAHRKARTEN!!". 

Assim fica fácil entender porque a "Die Bahn", como é chamada a Deutsche Bahn, é um dos empreendimentos alemães mais bem sucedidos financeiramente.

            Até a próxima!

terça-feira, 24 de setembro de 2013

Voltei!

Eu estudei em uma escola alemã a minha vida inteira. A minha mãe insistiu que eu passasse a minha vida escolar lá, ela teve que ralar muito e fazer muitos sacrifícios, mas ela fez questão. Durante um breve instante ela considerou me botar em um colégio militar (que glória seria andar a cavalo, marchar, vivenciar uma disciplina mais relaxada!),mas mudou de ideia antes mesmo de discutir a opção comigo.
Os motivos que ela dá são dois. O primeiro é que por ocasião da busca de escolas para matricular os seus pimpolhos, ela pediu ao então diretor da escola britânica se era possível fazer uma visita ao jardim de infância da instituição, ao que ela ouviu um mal educado e ressoante “não”. Muito desapontada, ela foi conhecer o jardim de infância da Escola Corcovado, logo na esquina do British.
O segundo motivo que ela dá é o Abitur. Para quem não sabe Abitur é tipo o vestibular da Alemanha, ele dura os dois últimos anos de escola e o resultado é vitalício. A minha mãe jamais se intrometeu na vida acadêmica dos filhos a não ser quanto ao Abitur. Ela fez questão que todos os filhos dela fizessem a bendita prova, porque era algo que nos possibilitaria estudar fora do país, quando, ou se, a hora chegasse.
Para mim a hora chegou.  Ano passado eu vim à Alemanha para testar se eu aguentava a saudade. Esse ano eu começo uma faculdade na Alemanha, um empreendimento que pode durar entre três e cinco anos, como informei o policial ao entrar no país.  Nas palavras de uma boa amiga, “falando que nem um adulto, eu vou começar uma nova etapa! Que frase tosca!”. Sair de casa, de verdade. Estudar matemática 1 e física 1 e 2. Assinar um contrato de aluguel, quem sabe, eventualmente, até alugar um apartamento que não é nos alojamentos da universidade...
A experiência do ano passado me mostrou o seguinte: faça um contrato de internet cedo, o Skype é NECESSÁRIO. Saia de casa pelo menos uma vez ao dia, mesmo que seja só para comprar um Döner, mesmo que esteja nevando, mesmo que esteja fazendo -18°C. Vá visitar um amigo quando você começar a se sentir só. Receba os seus amigos, vá com eles à piscina pública, ou cozinhe chilli con carne e salada de frutas para as meninas da sua Seminargruppe. Saiba que quando o bar tender do Irish te serve sem perguntar antes o que você quer beber, você fez uma nova amizade (felicidade!).

A água na Alemanha demora mais a ferver, a comida fica pronta mais rápida, use água desmineralizada para fazer o arroz (senão ele não fica soltinho) e deixe o feijão de molho à noite se você não tem uma panela de pressão. Tem leite moça no supermercado! Os alemães gostam de comer a batata frita do McDonald’s com maionese.  Use um casaco durante o outono. O outono é a época do ano mais linda.
Ao meu dedicado leitor, deixo um recado: voltei! Um beijo e um queijo.



Ich verbleibe deine, T