A mãe de uma amiga minha foi correspondente do JB na Alemanha durante muito tempo por duas razões: porque ela é jornalista e, mais importante, ela sabe falar alemão. O fato de alguém falar alemão por si só e digno de nota. Alemão é uma língua muito complicada. Mesmo falando alemão com a minha mãe em casa e na escola toda a minha vida, eu ainda não aprendi a língua de Goethe e Schiller. Mas eu faço digressões.

Do jeito que ela (a mãe da minha amiga) conta a história, depois da queda do muro, ela voltou para o Brasil, teve a minha amiga não quis voltar para a Alemanha. O pessoal no JB, sem saber muito bem o que começar com ela pensou: ela passou tempo na Alemanha. A Alemanha é um país conhecido por seus hábitos “verdes”. Porque não fazemos dela a editora do novo caderno ambiental?
Assim ela se tornou uma das ambientalistas mais famosas do Brasil. Até hoje, com o fim do JB, realizando outras coisas profissionalmente, ela ainda é convidada para conferências ambientais na Amazônia.
De qualquer maneira, eu conto toda essa história porque durante a minha viagem para Nürenberg, eu vi uma fazenda de eletricidade, nada incomum na Alemanha. Os desavisados se perguntam: “o que raios são fazendas de eletricidade?!” Os avisados querem saber se a fazenda era solar ou eólica. Aos segundos, era solar.
Aos primeiros, uma fazenda de eletricidade são pedaços de terra inutilizados ao lado dos trilhos de trem ou das Autobahnen onde são montados painéis solares ou moinhos de vento. Uma fazenda eólica também pode ser no meio de uma fazenda normal, não é raro ver um campo de trigo com vários moinhos de vento.
O mais interessante é, que na Alemanha a construção de painéis solares em casas particulares é incentivada com vantagens na hora de pagar impostos. Uma casa “energia zero”, ou seja, que produz toda a eletricidade e aquecimento necessários para se sustentar tem sua construção praticamente patrocinada pelo governo. Nessa mesma linha, casas são obrigadas a serem termicamente isoladas para poupar o máximo de energia e óleo possível durante o inverno.
Enfim, eu escrevo essa história porque quando me deparei com os campos de painéis solares, estava ouvindo Vinícius declamar um dos meus poemas preferidos no iPod. Em suma, no exílio (cof cof, missão diplomática, cof), assistindo dormir o seu filho, Vinícius chora de saudades de sua pátria, tão pobrinha. De qualquer maneira, é uma declaração de amor por um país que ele sabe ser imperfeito.
Naquele momento de acaso e oportunidade, serendipity, como dizem os Americanos, eu pensei como é injusto que um país tão pequeno e com tão poucos recursos naturais, se comparado ao Brasil, faça tão melhor proveito do que tem em mãos do que nós brasileiros. Como os alemães são tão mais ambientalmente conscientes exatamente porque têm tão pouco e porque a maioria foi destruída durante a Revolução Industrial e replantada depois da segunda guerra mundial. A diferença que faz ter em consciência a história de seu país e estar determinado a não cometer os mesmos erros e reparar o passado, algo que escapa à maioria brasileiros.
E, finalmente, que apesar disso tudo, naquele momento, eu sentia uma tremenda saudade, não só de casa, como também do Brasil. Dos guardadores de carro da minha rua, da vendedora do armarinho, do cara do balcão de frios na padaria, do vendedor de mate na praia. Eu sentia falta do cheiro de sal no ar, da umidade e do calor. Eu senti falta de saber que um trem atrasado não é um desastre, não é nada de extraordinário, é só um trem atrasado. Não é preciso resmungar.
Um momento que passou rápido e terminou com Miúcha cantando Pela Luz Dos Olhos Teus. O presente post serve para marcar a passagem daquele momento, que seja levada presto a mensagem: pátria minha, saudades de quem te ama, TW.