domingo, 22 de março de 2015

Choice

            Então em uma das cenas mais desnecessárias em uma das continuações mais supérfluas um dos personagens mais pedantes da história do cinema explica ao personagem principal que o problema é escolha. Em meio a todos esses superlativos, eu tendo a concordar.
            Eu escolho ter um momento top dez por dia, todo dia, mesmo que eu passe um domingo inteiro de pijama lendo um livro (em dias de gripe então esses domingos se acumulam...). Em dias assim eu escolho pijamas infantis porque nenhum momento top dez é completo sem o Donald, o Batman, o Woodstock ou o Wally. Usar camisetas gráficas ajuda em dias de semana...
Eu escolho pudim de chocolate porque o de baunilha é tão sem gracinha. Eu escolho carboidratos porque macarrão é amor, macarrão é vida. Eu escolho Schorle porque adicionar sucos à água carbonizada faz toda a diferença. Eu escolho batata. Eu escolho manteiga!
Eu escolho música (a boa quanto a ruim) porque uma vida precisa de trilha sonora e se a vida pode ser representada por um gráfico cartesiano de quatro coordenadas o ponto (0; 0; 0; 0) é Johann Sebastian Bach, que esse ano completa anos redondos: 330! Eu escolho comparar traduções de livros. Eu escolho assistir séries com assassinos serias no escuro. Eu escoho O Senhor dos Anéis.
Eu escolho a nobre e muito antiga arte da procrastinação, caipirinhas sem açúcar e cervejas geladas. Eu escolho ir à praia na beira do rio em vez de ir à praia na beira do Atlântico. Eu escolho que reclamar da minha praia nova é completamente ok... No verão eu escolho anti-histamínicos da primeira geração e baseball.
Eu escolho não me maquiar para dormir dez minutos a mais. Eu escolho usar um perfume especial para ocasiões cotidianas. Eu escolho frutas cítricas como sabor para o meu xampu. Eu escolho capim limão para aromatizar a sala.
O mais importante de todos esses eu aprendi recentemente. A visita me explicou que se apresentada às opções “aloe vera” e “qualquer outra coisa que não aloe vera” na hora de escolher um hidratante você deve sempre escolher “aloe vera”. 

domingo, 15 de março de 2015

Turistas

            Por ocasião da mudança de um bom amigo meu à Berlim, comecei a fazer altos planos de tudo o que vamos fazer no futuro próximo. Diga-se de passagem, que a maioria desses planos nunca vai sair do papel por dois motivos: primeiro, dito amigo tem que trabalhar. Segundo: eu sofro de uma doença crônica que me impede de sair da cama (e de casa) quando eu não sou obrigada chamada preguiça. Mas, como é a intenção que conta, eu faço planos. Muitos planos.
            Alguns só se realizarão no futuro distante, pois requerem temperaturas um pouco menos amenas e sol, a saber: ir nadar em Wanssee. Outras (sinceramente a grande maioria) giram em torno de comida. O meu preferido era ir a um festival semanal de comida de rua que conheci quando me mudei pra cá. Desde que o visitei pela primeira vez o público mudou (muito) e inchou (a proporções insuportáveis). O que costumava ser uma festa meio de vizinhança, meio hipster (sabe Cobal do Humaitá?) agora é uma atração turística.
            Não me leve a mal, caro leitor. Eu sou do Rio. Eu me mudei para uma cidade que é considerada um patrimônio cultural pela ONU. Já estou acostumada a estar sempre rodeada por visitantes estrangeiros. Eu simpaticamente ensino turistas a chegarem aos pontos turísticos procurados. Eu mesma gosto de fazer programas turísticos. Mas eu não gosto das pessoas que fazem esses programas comigo. Turistas, principalmente aqueles  em grupos grandes, que falam alto e fazem perguntas redundantes ao guia, são a principal causa das minhas cólicas pancreáticas...

            De qualquer maneira, o festival de comida de rua foi abandonado por uma ida ao rodízio de sushi. Um pouco mais caro? Sim. Mas a companhia será bem menos exuberante. Além do mais o amiguinho e eu temos uma longa tradição de uma ida ao rodízio de sushi para manter. Mal posso esperar!

terça-feira, 10 de março de 2015

Toma um chá

            No filme “Casamento Grego” a solução do pai da personagem principal para todas as mazelas é Vidrex. Espinha? Passa Vidrex! Se cortou? Espirra Vidrex! Manchou o vestido branco com vinho tinto? Vidrex!
            Assim como o pai grego do filme os alemães são fãs da solução simples. Aqui a solução se chama chá. Enjoo? Tem chá que cure! Infecção urinária? Toma um chá! Bronquite, asma, tossindo um pulmão? Toma um chá! Memórias que gostaria de esquecer? Toma um chá (do sabor Long Island em sua versão gelada).
            De qualquer maneira: peguei a gripe que anda importunando metade da população alemã. Ficar doente com a mãe em outro continente é fogo. (Intelectualmente eu entendo que não ficaria boa mais rápido se ela estivesse aqui comigo, mas é tão bom quando a mãe faz carinho e dá colo). Como o fiel leitor sabe, eu bem sou fã de um chá. Água é tão sem graça, tão sem gosto de nada, enquanto o nobre chá é a água com gosto, com cafeína, memória de praia se for mate.

            Então a criança foi comprar chá. Chá de resfriado e chá de tosse e bronquite. Também jogou um olho no chá de noite bem dormida, se interessou pelos chás de digestão e dor de cabeça e se perguntou como funciona o chá de detox (urtiga, o ingrediente secreto é urtiga para irritar a mucosa do trato gastrointestinal...). Enfim, tomou um chá pra ver se a tosse passava e não é que ajudou?

domingo, 1 de março de 2015

Praga

            Pra quem lê existem certas frases que te marcam, te transformam, mudam a sua vida. As de maior impacto costumam ser no começo ou no fim das minhas hisórias preferidas. “Mr. and Mrs. Dursley of number four, Privet Drive, were proud to say that they were perfectly normal, thank you very much.” de Harry Potter, eu garanto que não fui a única convertida por esses livros. “In a hole in the ground there lived a Hobbit” e “Well I’m back.” e todas as palavras entre elas no Senhor dos Anéis, obviamente.
Em alemão a minha frase preferida é “Als Gregor Samsa eines Morgens aus unruhigen Träumen erwachte, fand er sich in seinem Bett zu einem ungeheuren Ungeziefer verwandelt. Basicamente diz que ao despertar de sonhos intranquilos Gregor Samsa se vê transformado em um enorme e monstruoso bicho e/ou verme e/ou des-ser.

Abre parêntesis: A tradução ao pé da letra de Ungeziefer é literalmente ser que não é. É por essa e outras que eu adoro a língua alemã: uma pessoa pode ser tão baixa e verminosa, tão indigna de sua atenção, que ela pode ser chamada de “ser que não é”. Fecha parêntesis.

De qualquer maneira, a descrião de um des-ser enorme e monstruoso sempre evocou a imagem de uma barata (as ações que seguem e a personalidade de Gregor Samsa reforçaram a ideia no meu subconsciente...) e cimentaram a minha afeição por contos de Kafka (pobre homem...). Em minha defesa, eu tinha 12 anos e gostava de Nirvana. Todo mudo passou por essa fase...
O fiel leitor conhece as minhas opiniões quanto a baratas e a essa altura do campeonato está se perguntado o que isso tudo tem a ver com Praga. (Ela prometeu Praga, um belíssimo destino turístico, mas está escrevendo sobre seres repugnantes e autores deprimidos? WTF?). Se bem que baratas não deixam de ser um tipo de praga, assim como moléstia é um xingamento. Hmm...

Kafka morou em Praga. O chalé que ele alugava nas sombras do castelo (Reserve um dia inteiro para visitar o castelo de Praga. Ele é enorme!) ainda está lá, agora é uma livraria. Aos pés do morro onde o castelo foi construído um Museu Kafka, no cemitério judeu um autor deprimido e seus pais enterrados. Outros museus também e outros prédios, mas para mim ficaram: o chalezinho do Kafka e A Ponte Carlos. E como se diz estação central em tcheco.
Praga: a cidade dourada das 100 torres. Linda, linda, linda. Vários castelos, igrejas e pontes. Mas isso não é o importante. Importante é saber que no café do Rudolphinum, além de uma estátua de Dvořák, o fiel leitor há de encontrar uma bomba (de comer, não de explodir) de cortesia.
Vários santos enterrados, várias janelas essenciais para o início de guerras mundiais e em um restaurante no bairro judeu onde o fiel leitor há de encontrar uma iguaria chamada chapa boêmia (alimenta 1 a 4 pessoas, dependendo da fome) que consiste basicamente de carne e molho de carne. Para beber uma Pilsner, por favor, que foi inventada logo ali na esquina (em outra cidade chamada Pilsen!).


Vários turistas, vários vendedores prontos pra pechinchar e uma Rua chamada Paris, onde nenhum vendedor está pronto para pechinchar, pães doces que são assados na brasa (glória absoluta) e uma língua tão difícil de ler e falar que todo mundo fala inglês mesmo. E a ponte. Numa cidade à beira do rio, com mais ou menos 180 pontes uma é conhecida e popular no mundo inteiro. A Ponte. Anos e anos esperando para ver a ponte valeram a pena (minha alma não é pequena, afinal de contas...)

Pra finalizar, retornamos ao assunto frases de impacto e Kafka. Um dos meus contos preferidos de Clarice Lispector termina da seguinte maneira: “Começa assim: queixei-me de baratas”. Ao que uma turma inteira foi pesquisar Leibnitz e o que o Amor foi fazer na Polinésia. 
Bom conto...

domingo, 22 de fevereiro de 2015

Segunda tentativa

Eu obviamente tenho um problema de follow-through, quem duvida só precisa ver a data do meu último post...
Recentemente me chamaram atenção para o meu probleminha. Na verdade o meu maior problema é falta de coisa pra escrever. Faltam-me ideias (bonito né, não começar a frase com um pronome?), me falta inspiração. Muito como o famoso Doutor Watson, nada de interessante me acontece.
Aí a irmã da criança enlouquece e faz uma lista com assuntos sobre os quais escrever... No espírito “ano novo, vida nova” (agora que o carnaval passou e o ano pode ser oficialmente declarado como iniciado!) nós vamos tentar essa moléstia de novo. E agora que eu tenho uma lista de assuntos eu vou escrever mais regularmente. A lista é pequena, então perguntas, cooperação do caro leitor, comentários (peloamor!) são mais que bem-vindos! Toda semana, uma vez por semana, no domingo, mando notícias da terra antiga.
O assunto da semana é Praga (o lugar, não no contexto “Egito antigo”). Eu visitei a capital da República tcheca. Belíssima cidade (mais sobre o assunto semana que vem, com fotos, prometo!), câmbio super em favor do Euro, turistas saindo pelas orelhas.
De volta ao assunto câmbio: primeiro dia, nós acabamos de chegar à cidade, saímos para almoçar no centro histórico. Duas sopas e um hambúrguer depois, a conta: 1200 coroas. Mil e duzentos dinheiros. Hum mil e duzentos! Parece muito. Não é. Dá uns 40 Euros convertido.
O impressionante é o tamanho do número. A mãe se sentiu transportada de volta no tempo, pra época da inflação, quando ela recebia milhões de cruzeiros e os preços tinham que ser escrito à lápis porque os preços aumentavam diariamente. De qualquer maneira, só pra me gabar que já gastei mais de mil dinheiros em uma refeição, aqui a prova: