domingo, 7 de agosto de 2016

Carta aberta à Bela Gil

Cara Bela,

Também sou nutricionista (me perdoe, mas eu sou da parte analítica da nutrição. Na minha opinião vida é química e química é vida.) e admiro muito o seu projeto de educação nutricional. É um empreendimento muito louvável e necessário no mundo atual. É incrível a sua aparente facilidade em apresentar novos tipos de alimentos e dietas à sua vasta audiência. O seu compromisso com alimentação saudável e livre de agrotóxicos modificou de maneira real e sensível a vida da população brasileira. Isso é incrível, parabéns!

Só há um pequeno detalhe. A demagogia de alguns de seus argumentos me incomoda profundamente. A gota d’água foi ‘pãozinho de fermentação natural’. NÃO EXISTE FERMENTAÇÃO ARTIFICIAL!

Ghee não é nada mais que manteiga clarificada! Os alemães chamam de Schmalz e fritam os famosos Schnitzel nele!

Quinoa costumava ser um cereal de fome dos indígenas andinos que agora sofrem para obter esse ‘cereal da moda’. Sabe o que também é bom? MANDIOCA!

Painço ou milhete não é um ingrediente brasileiro! É produzido em regiões semi-áridas da Ásia e da África (Índia, Mali, Nigéria. Sabe, países onde fome é endêmica!) onde é um alimento básico. Pense na direção: arroz, feijão e farinha de mesa!

Shot de grama para nutrir o sangue? ‘NUTRIR O SANGUE’?! Tu tá de sacanagem! Eu sei que você teve aula de fisiologia durante a graduação, de onde saiu nutrir o sangue?? Pense nos seus pobres professores de fisio!

O que vem a ser um tipo de frutose que não é bem absorvido pelo corpo? Porque eu só conheço dois tipos de frutose a D- e a L-Frutose e ambas são absorvidas pelo GLUT-5 e metabolizadas independente de insulina. Da onde saiu a sua frutose especial para a flora intestinal? E aonde ficaram os seus conhecimentos de química e bioquímica da graduação? Você não quer dizer: fibras solúveis?

Qual é o seu problema com leite de vaca?! Milhares de anos de adaptação para a lactase persistir não foram à toa! O leite é um alimento quase completo e ACESSÍVEL! Acredite ou não, existe leite de vacas felizes! Não me venha começar com dietas “livres de”. Já cansei antes do glúten!

Bertalha? Sério? Um espinafre especial, porque é da Índia e por isso custa cinco vezes mais? Sabe o que também é bom, saudável e cresce como se fosse erva daninha, por que muitas vezes é uma erva daninha domesticada? CRUCÍFERAS*!

Quer saber, cansei! Que tal mais receitas com “de tudo um pouco” que tem na geladeira. Todo mundo gosta de dicas para se livrar dos restos e diminuir desperdício. Que tal apresentar mais fazendas orgânicas e o trabalho de pequenos agricultores? Que tal fazer mais projetos no estilo “farm to fork” que você gosta tanto? Que tal incentivar o aleitamento materno? Que tal trabalhar a introdução alimentar para crianças? Que tal continuar incentivado pessoas a abrir mão do refrigerante? 

Que tal lembrar que o açúcar das frutas não é só frutose, é sacarose: uma mistura 1:1 de glucose e frutose, e que é a glucose desses dois que faz mal? “Your work needs work”!

Uma última coisa, adorei o seu churrasco de melancia!

Cordialmente,

Eu

*Para o amiguinho leigo: crucíferas, ou mais corretamente a famíla das Brassicaceae, vulgo a famíla dos repolhos: brócolis, couve flor, couve, rúcola, rabanete etc...

segunda-feira, 7 de março de 2016

Dos Sete Pecados Capitais: A Ira

Eu tenho um quadro no meu banheiro com os dizeres:

“Ira demole alegria, rouba a bondade da minha mente, me força a dizer coisas terríveis.
Superar a ira traz paz de espírito, leva a uma mente sem arrependimentos.
Se eu derrotar a ira, vou ser agradável e amada por todos.”

A intenção é me lembrar disso, todo dia de manhã enquanto eu escovo os dentes. Hoje eu percebi que a leitura foi um pouco negligenciada ultimamente. Hoje eu fiz algo (na verdade deixei de fazer algo) por causa de raiva. Não foi nada terrível, eu só não troquei de grupo com uma menina... Mas foi por raiva, mesquinharia, cólera, zanga, enfim: sentimentos baixos.
Existe uma história por trás: Duas semanas atrás eu descobri que essa menina ri de mim, faz graça das minhas camisas, me acha infantil, blá blá blá. O problema é que eu sempre achei que ela era muito simpática, que quando ela via as minhas blusas ela estava rindo das piadas de duplo sentido, não de mim. Tiveram que me contar que ela estava fazendo graça de mim (inocentemente me contaram, acharam que eu já sabia.). Segue flashback dos tempos de escola. Todo mundo já passou por isso. Na escola eu tinha quem me defendesse. Eu percebi que agora que eu sou grande eu teria de me defender sozinha (só ainda não sei como...)
Volta pra hoje. Divisão de grupos para a prática. O meu trio se inscreve para o Grupo 8, dia curto na 5ª (só até as 15h, yeey!), a menina vem pra frente, quer trocar conosco o dia curto. Agora: não seria o fim do mundo ter um dia curto na 4ª em vez de na 5ª, mas eu não quero fazer nenhum favor pra essa menina. E ela não quer trocar para ir trabalhar ir ao médico. Ela quer trocar para ir dançar! Detalhe, ela não fala comigo, fala com as outras duas no grupo que desconversam (foram elas que tiveram que me explicar que a menina ria de mim...). Menina olha para mim e pergunta: O que a Tess acha de trocar? Sem nem pestanejar eu digo que não. Que eu não estou afim.
Cheguei em casa, fiz almoço, lavei a louça, preparei a prática de amanhã. Quando fui pegar água li o quadro pela primeira vez em dias: percebi que tinha deixado a raiva levar a melhor de mim. Desde a semana passada estava sem saber lidar com aquiela situação. Eu tinha deixado juntar um nozinho verde de bile e ira no fígado (criadouro da melancolia e decontentamento) desde o momento flashback, consequentemente as semanas desde então não foram preenchidas de felicidade e positividade. Ler o quadro me fez lembrar que eu não quero ser igual à menina, eu não quero ser ignorante e baixa. Eu não quero derivar a minha felicidade do sofrimento de outros. Eu fui lembrada (não só pelo quadro, mas pelo fim de semana recheado de amigas espertas, lindas e inteligentes) da antiga e nobre arte do desapego. Essa criança lembrou que o que foi, já passou e o que vem, vai ser melhor. Essa criança promete tentar não esquecer isso tão cedo.
Amiguinho, eu sei que o post não foi engraçado, que não precisava disso tudo numa segunda-feira. Amiguinho, da próxima vez melhora! Toma aqui um Toblerone pra melhorar.

sábado, 27 de fevereiro de 2016

Luxo e carnaval

Outro dia fui conversar com os orientadores do meu TCC. Eles me contaram que o ditocujo na verdade é só um relatório um pouquinho maior. Antes de poder escrever o TCC eu tenho que passar um mês no laboratório, escrevendo relatórios (porque a dupla é uma folgada...) todo dia, de assuntos diferentes. Obrigada pelo treino.
Pro TCC eu vou fazer uma (várias, várias!) HPLC/MS. MS significa espectrometria de massa. Eu lembro que na minha universidade no rio nós compramos um espectrômetro quando abriu o Mestrado. Era só pros mestrandos, o pessoal do bacharelado não podia nem entrar naquele laboratório. Da primeira vez que ligaram a máquina ela quebrou: voltagem errada. (Cara, que merda! 10 mil dólares pelo ralo, porque esqueceram de ler o manual!).
Aqui na Alemanha eu vou poder usar essa máquina pra escrever o meu TCC. Não sou nada no grande espectro das coisas universitárias e vão por uma máquina dessas nas minhas mãos. Durante as aulas práticas eu (não o professor na frente da turma, euzinha e minha dupla) extraímos DNA e fazemos PCR dele, fazemos fotometria, usamos batches enzimáticos, fazemos design de primers e fazemos imunoessays (sabe quanto custa um batch de anticorpos?!). 
Anteontem a dupla pipetou errado e nós tivemos que recomeçar a prática. Três enzimas diferentes pra reagir no tubinho. No Brasil, o meu amado primo, um Professor Doutor (PhDeus, mas é M.D.) tem que mendigar uma enzima. E eu aqui com água destilada saindo na torneira. Luxo é isso! Água destilada que sai da parede. O resto é carnaval!

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Quaresma

Vou ser bem sincera: esse blog nunca vai ser mantido nas condições em que eu o imaginava no momento de sua criação. Ainda mais: o assunto principal de longe não vai ser coisas alemãs porque eu percebi que a Alemanha nem é tão diferente assim do Brasil (com exceção da internet que é infinitamente melhor, mais rápida e mais supervisionada e da TV aberta que na verdade é paga...). Digo mais: post com foto? Só se eu tiver com muuuuuito saco.
De qualquer maneira: Quaresma né... Ano passado tentei, fiquei um mês e meio sem comer carne. Não pegou. Foi a páscoa chegar que eu caí de boca e continuei comendo carne quase todo dia (a nutri interna se desespera e fala: gente isso não é necessário!!). Na vã tentativa de melhorar o meu relacionamento com a carne esse ano e tentei de novo. Botei álcool na lista também, porque né... Necessário e tals...
Amiguinhas acham uma ideia legal Coleguinhas me perguntam: “você ainda tá nessa de jejuar?”. Eu não tô jejuando coleguinha e sim, só saio dessa, dia 27 de março... te juro que eu acho que os alemães não sabem contar até quarenta.
Agora vem o verdadeiro motivo do post: ontem (semana passada, mas o sentimento permanece) tava eu, pequena eu, insignificante eu indo à faculdade com a amiguinha. Amiguinha queria saber como está indo a quaresma quando me cai a ficha: gente faz dias (DIAS!!) que eu não tenho a menor vontade de comer carne. Mesmo assistindo milhões de vídeos de receita no FB (a enorme maioria com carne, que moléstia...)

Era só isso mesmo que eu queria dizer: a Quaresma tá pegando.

domingo, 22 de março de 2015

Choice

            Então em uma das cenas mais desnecessárias em uma das continuações mais supérfluas um dos personagens mais pedantes da história do cinema explica ao personagem principal que o problema é escolha. Em meio a todos esses superlativos, eu tendo a concordar.
            Eu escolho ter um momento top dez por dia, todo dia, mesmo que eu passe um domingo inteiro de pijama lendo um livro (em dias de gripe então esses domingos se acumulam...). Em dias assim eu escolho pijamas infantis porque nenhum momento top dez é completo sem o Donald, o Batman, o Woodstock ou o Wally. Usar camisetas gráficas ajuda em dias de semana...
Eu escolho pudim de chocolate porque o de baunilha é tão sem gracinha. Eu escolho carboidratos porque macarrão é amor, macarrão é vida. Eu escolho Schorle porque adicionar sucos à água carbonizada faz toda a diferença. Eu escolho batata. Eu escolho manteiga!
Eu escolho música (a boa quanto a ruim) porque uma vida precisa de trilha sonora e se a vida pode ser representada por um gráfico cartesiano de quatro coordenadas o ponto (0; 0; 0; 0) é Johann Sebastian Bach, que esse ano completa anos redondos: 330! Eu escolho comparar traduções de livros. Eu escolho assistir séries com assassinos serias no escuro. Eu escoho O Senhor dos Anéis.
Eu escolho a nobre e muito antiga arte da procrastinação, caipirinhas sem açúcar e cervejas geladas. Eu escolho ir à praia na beira do rio em vez de ir à praia na beira do Atlântico. Eu escolho que reclamar da minha praia nova é completamente ok... No verão eu escolho anti-histamínicos da primeira geração e baseball.
Eu escolho não me maquiar para dormir dez minutos a mais. Eu escolho usar um perfume especial para ocasiões cotidianas. Eu escolho frutas cítricas como sabor para o meu xampu. Eu escolho capim limão para aromatizar a sala.
O mais importante de todos esses eu aprendi recentemente. A visita me explicou que se apresentada às opções “aloe vera” e “qualquer outra coisa que não aloe vera” na hora de escolher um hidratante você deve sempre escolher “aloe vera”. 

domingo, 15 de março de 2015

Turistas

            Por ocasião da mudança de um bom amigo meu à Berlim, comecei a fazer altos planos de tudo o que vamos fazer no futuro próximo. Diga-se de passagem, que a maioria desses planos nunca vai sair do papel por dois motivos: primeiro, dito amigo tem que trabalhar. Segundo: eu sofro de uma doença crônica que me impede de sair da cama (e de casa) quando eu não sou obrigada chamada preguiça. Mas, como é a intenção que conta, eu faço planos. Muitos planos.
            Alguns só se realizarão no futuro distante, pois requerem temperaturas um pouco menos amenas e sol, a saber: ir nadar em Wanssee. Outras (sinceramente a grande maioria) giram em torno de comida. O meu preferido era ir a um festival semanal de comida de rua que conheci quando me mudei pra cá. Desde que o visitei pela primeira vez o público mudou (muito) e inchou (a proporções insuportáveis). O que costumava ser uma festa meio de vizinhança, meio hipster (sabe Cobal do Humaitá?) agora é uma atração turística.
            Não me leve a mal, caro leitor. Eu sou do Rio. Eu me mudei para uma cidade que é considerada um patrimônio cultural pela ONU. Já estou acostumada a estar sempre rodeada por visitantes estrangeiros. Eu simpaticamente ensino turistas a chegarem aos pontos turísticos procurados. Eu mesma gosto de fazer programas turísticos. Mas eu não gosto das pessoas que fazem esses programas comigo. Turistas, principalmente aqueles  em grupos grandes, que falam alto e fazem perguntas redundantes ao guia, são a principal causa das minhas cólicas pancreáticas...

            De qualquer maneira, o festival de comida de rua foi abandonado por uma ida ao rodízio de sushi. Um pouco mais caro? Sim. Mas a companhia será bem menos exuberante. Além do mais o amiguinho e eu temos uma longa tradição de uma ida ao rodízio de sushi para manter. Mal posso esperar!

terça-feira, 10 de março de 2015

Toma um chá

            No filme “Casamento Grego” a solução do pai da personagem principal para todas as mazelas é Vidrex. Espinha? Passa Vidrex! Se cortou? Espirra Vidrex! Manchou o vestido branco com vinho tinto? Vidrex!
            Assim como o pai grego do filme os alemães são fãs da solução simples. Aqui a solução se chama chá. Enjoo? Tem chá que cure! Infecção urinária? Toma um chá! Bronquite, asma, tossindo um pulmão? Toma um chá! Memórias que gostaria de esquecer? Toma um chá (do sabor Long Island em sua versão gelada).
            De qualquer maneira: peguei a gripe que anda importunando metade da população alemã. Ficar doente com a mãe em outro continente é fogo. (Intelectualmente eu entendo que não ficaria boa mais rápido se ela estivesse aqui comigo, mas é tão bom quando a mãe faz carinho e dá colo). Como o fiel leitor sabe, eu bem sou fã de um chá. Água é tão sem graça, tão sem gosto de nada, enquanto o nobre chá é a água com gosto, com cafeína, memória de praia se for mate.

            Então a criança foi comprar chá. Chá de resfriado e chá de tosse e bronquite. Também jogou um olho no chá de noite bem dormida, se interessou pelos chás de digestão e dor de cabeça e se perguntou como funciona o chá de detox (urtiga, o ingrediente secreto é urtiga para irritar a mucosa do trato gastrointestinal...). Enfim, tomou um chá pra ver se a tosse passava e não é que ajudou?

domingo, 1 de março de 2015

Praga

            Pra quem lê existem certas frases que te marcam, te transformam, mudam a sua vida. As de maior impacto costumam ser no começo ou no fim das minhas hisórias preferidas. “Mr. and Mrs. Dursley of number four, Privet Drive, were proud to say that they were perfectly normal, thank you very much.” de Harry Potter, eu garanto que não fui a única convertida por esses livros. “In a hole in the ground there lived a Hobbit” e “Well I’m back.” e todas as palavras entre elas no Senhor dos Anéis, obviamente.
Em alemão a minha frase preferida é “Als Gregor Samsa eines Morgens aus unruhigen Träumen erwachte, fand er sich in seinem Bett zu einem ungeheuren Ungeziefer verwandelt. Basicamente diz que ao despertar de sonhos intranquilos Gregor Samsa se vê transformado em um enorme e monstruoso bicho e/ou verme e/ou des-ser.

Abre parêntesis: A tradução ao pé da letra de Ungeziefer é literalmente ser que não é. É por essa e outras que eu adoro a língua alemã: uma pessoa pode ser tão baixa e verminosa, tão indigna de sua atenção, que ela pode ser chamada de “ser que não é”. Fecha parêntesis.

De qualquer maneira, a descrião de um des-ser enorme e monstruoso sempre evocou a imagem de uma barata (as ações que seguem e a personalidade de Gregor Samsa reforçaram a ideia no meu subconsciente...) e cimentaram a minha afeição por contos de Kafka (pobre homem...). Em minha defesa, eu tinha 12 anos e gostava de Nirvana. Todo mudo passou por essa fase...
O fiel leitor conhece as minhas opiniões quanto a baratas e a essa altura do campeonato está se perguntado o que isso tudo tem a ver com Praga. (Ela prometeu Praga, um belíssimo destino turístico, mas está escrevendo sobre seres repugnantes e autores deprimidos? WTF?). Se bem que baratas não deixam de ser um tipo de praga, assim como moléstia é um xingamento. Hmm...

Kafka morou em Praga. O chalé que ele alugava nas sombras do castelo (Reserve um dia inteiro para visitar o castelo de Praga. Ele é enorme!) ainda está lá, agora é uma livraria. Aos pés do morro onde o castelo foi construído um Museu Kafka, no cemitério judeu um autor deprimido e seus pais enterrados. Outros museus também e outros prédios, mas para mim ficaram: o chalezinho do Kafka e A Ponte Carlos. E como se diz estação central em tcheco.
Praga: a cidade dourada das 100 torres. Linda, linda, linda. Vários castelos, igrejas e pontes. Mas isso não é o importante. Importante é saber que no café do Rudolphinum, além de uma estátua de Dvořák, o fiel leitor há de encontrar uma bomba (de comer, não de explodir) de cortesia.
Vários santos enterrados, várias janelas essenciais para o início de guerras mundiais e em um restaurante no bairro judeu onde o fiel leitor há de encontrar uma iguaria chamada chapa boêmia (alimenta 1 a 4 pessoas, dependendo da fome) que consiste basicamente de carne e molho de carne. Para beber uma Pilsner, por favor, que foi inventada logo ali na esquina (em outra cidade chamada Pilsen!).


Vários turistas, vários vendedores prontos pra pechinchar e uma Rua chamada Paris, onde nenhum vendedor está pronto para pechinchar, pães doces que são assados na brasa (glória absoluta) e uma língua tão difícil de ler e falar que todo mundo fala inglês mesmo. E a ponte. Numa cidade à beira do rio, com mais ou menos 180 pontes uma é conhecida e popular no mundo inteiro. A Ponte. Anos e anos esperando para ver a ponte valeram a pena (minha alma não é pequena, afinal de contas...)

Pra finalizar, retornamos ao assunto frases de impacto e Kafka. Um dos meus contos preferidos de Clarice Lispector termina da seguinte maneira: “Começa assim: queixei-me de baratas”. Ao que uma turma inteira foi pesquisar Leibnitz e o que o Amor foi fazer na Polinésia. 
Bom conto...

domingo, 22 de fevereiro de 2015

Segunda tentativa

Eu obviamente tenho um problema de follow-through, quem duvida só precisa ver a data do meu último post...
Recentemente me chamaram atenção para o meu probleminha. Na verdade o meu maior problema é falta de coisa pra escrever. Faltam-me ideias (bonito né, não começar a frase com um pronome?), me falta inspiração. Muito como o famoso Doutor Watson, nada de interessante me acontece.
Aí a irmã da criança enlouquece e faz uma lista com assuntos sobre os quais escrever... No espírito “ano novo, vida nova” (agora que o carnaval passou e o ano pode ser oficialmente declarado como iniciado!) nós vamos tentar essa moléstia de novo. E agora que eu tenho uma lista de assuntos eu vou escrever mais regularmente. A lista é pequena, então perguntas, cooperação do caro leitor, comentários (peloamor!) são mais que bem-vindos! Toda semana, uma vez por semana, no domingo, mando notícias da terra antiga.
O assunto da semana é Praga (o lugar, não no contexto “Egito antigo”). Eu visitei a capital da República tcheca. Belíssima cidade (mais sobre o assunto semana que vem, com fotos, prometo!), câmbio super em favor do Euro, turistas saindo pelas orelhas.
De volta ao assunto câmbio: primeiro dia, nós acabamos de chegar à cidade, saímos para almoçar no centro histórico. Duas sopas e um hambúrguer depois, a conta: 1200 coroas. Mil e duzentos dinheiros. Hum mil e duzentos! Parece muito. Não é. Dá uns 40 Euros convertido.
O impressionante é o tamanho do número. A mãe se sentiu transportada de volta no tempo, pra época da inflação, quando ela recebia milhões de cruzeiros e os preços tinham que ser escrito à lápis porque os preços aumentavam diariamente. De qualquer maneira, só pra me gabar que já gastei mais de mil dinheiros em uma refeição, aqui a prova:

sexta-feira, 25 de abril de 2014

Frühling

Todo mundo tem dias assim. Aqueles em que você acorda e ainda tá escuro. Dias em que você dormiu triste, estressada, preocupada e quando acorda o sono não curou as suas mágoas. Dias que nem todo o macarrão ou chocolate te trazem felicidade.

Dias que servem para assistir filmes tristes, ouvir música boa, ler livros debaixo do cobertor. Dias de primavera frios e encobertos, quando a promessa do verão está distante demais e a saudade não abranda.


Dias que passam, mas que durante o dia são infindos. Dias intermináveis, imensos, infinitos.

Nada cura um dia desses mais rápido do que um passeio no parque! A primavera chegou! As árvores estão verdes, os jardins estão em flor e as pessoas estão usando shorts e eu lembro que Potsdam é a cidade mais bonita da Alemanha. 

FINALMENTE!



  

sábado, 12 de abril de 2014

Kurzgeschichten: Bazinga!



Então, a criança gosta de camisetas gráficas. Engraçadinhas, com piadas internas, quanto pior, melhor. Para ser bem clara, a criança também gosta de química.

Na terça feira a criança está usando uma camisa com os símbolos para Bário, Zinco e Gálio. Juntos eles escrevem Ba Zn Ga. Parecido o suficiente com o que Sheldon Cooper, PhD fala em The Big Bang Theory para ser digno de uma camiseta.

De qualquer maneira, a criança acompanha uma amiga para vista de prova química. No escritório do professor de química, dois doutorandos. Um deles uma velha conhecida do laboratório. A criança começa a conversar com dita doutoranda. Entra o professor de química, o senhor feudal do corredor em que se encontra o nosso atual escritório, o chefe do departamento de química inorgânica, mestre em piadas ruins.

E aí o professor pergunta se existe uma razão específica para eu estar usando aqueles elementos específicos, se eu mesma fiz a camiseta, se eu conheço Die Ärtzte, a banda que ele estava discutindo com os doutorandos. Conversa vai, conversa vem, eu e minha amiga saindo do escritório, o professor termina o debate sobre Die Ärtzte falando (em inglês): A resposta é 42.

Ao que a criança completamente pira, aponta pro professor e fala: DOUGLASADAMSOMOCHILEIRODASGALÁXIAS! EUADOROESSELIVRO! O professor olha de volta e responde: sim.

E eu: legal... boa aula hoje... até semana que vem!

Melhor terça-feira EVER. 

quarta-feira, 19 de março de 2014

One Ring to rule them all

Aí a criança é fã do Senhor dos Anéis e usa um O Anel por motivos estéticos e de satisfação interna. Afinal de contas, O Anel veio a nós no dia do aniversário do Bolssseiro, preciossso. Aí perguntam para criança o que está escrito no anel e ela responde que a escrita é na língua escura de Mordor, que ela não há de pronunciar aqui, mas que na língua comum o dizer soa: Um Anel para todos governar, blá blá blá...
Toda vez. Mas TODA vez! perguntam se a criança sabe repetir o dizer d’O Anel na língua escura de Mordor. É claro que sim! Foi uma das primeiras coisas que ela apreendeu (sim, com dois és! A criança é culta!) dos livros!

Mas eu me distraio... o assunto na verdade é cerveja. E como alemães são incapazes de usar um abridor de garrafas. Nunca vi tantos objetos diferentes serem usados em substituição desse reles objeto metálico. Chaves, chaveiros, garfos, facas e colheres, a quina da mesa ou do bar, isqueiros, a capa do celular, óculos, tesouras, outras garrafas de cerveja. A lista aparenta ser infinita. Um alemão não pode se chamar alemão enquanto usuário do apetrecho: abridor de garrafas.

A criança então se prontificou a aprender essa obscura arte germânica. Ela não deixa de ser, nada além de uma variação sobre o tema grego “alavancas”. No maior estilo “dê-me uma alavanca longa o suficiente e moverei o mundo” a criança aplicou o seu anel ao canto da tampinha e, (na primeira tentativa, diga-se de passagem)  entrou para o clube dos alemães. Ela abriu uma cerveja sem usar um abridor enquanto assistia o Bayern München jogar (e ganhar...) na casa de uma amiga.



Só para deixar bem claro que joias tem uma outra razão de ser aqui na antiga Prússia...


Até mais!

sábado, 18 de janeiro de 2014

Gendarmenmarkt


Então... A criança é gêmea. Famosamente gêmea. Status: celebridade na escola por ser uma DAS gêmeas. A mãe era “a mãe das gêmeas”. O irmão era “o irmão das gêmeas”. O meu nome era composto, o nome da irmã seguido do meu: Anketess. Poucas pessoas podem usar o nome composto. Ainda menos pessoas usam sem precisar. Apenas um pode usar somente a primeira metade quando se referindo a mim. Mas o post não vai ser sobre nomes...
Sabe aquele seu professor da escola, aquele que era maneiro, aquele que todo mundo gostava das aulas? O meu era o professor de música, usava um rabo de cavalo e ensinava seus alunos a tocarem músicas legais. (“Ana Júlia”, o hit que lançou o Los Hermanos, o tema dos Flinstones, “I Believe I Can Fly” no auge do sucesso de Space Jam...). Esse meu professor veio fazer um doutorado em Berlim (porque ele é mega-inteligente e um super-musicista). Ele foi no Gendarmenmarkt em Berlim com uma professora da escola e lá eles pensaram nas gêmeas. 

Para quem não sabe, o Gendarmenmarkt é uma praça em Berlim com dois prédios praticamente idênticos do lado esquerdo e direito. De um lado fica o museu do movimento parlamentar na Alemanha (que é supreendentemente bom!) e do outro o da colonização huguenote de Berlim.
De qualquer maneira, estavam os meus ex-professores na praça se perguntando qual prédio era qual quando se lembraram de que costumavam ter alunas que provocavam a mesma dúvida. Boas lembranças, risadas, risadas... alguns meses depois me contam a história. Então quando me mudei pra cá, eu que sempre só tinha passado pela praça e nunca parado para apreciá-la (ou os seus museus...), fui lhe fazer uma visita com a irmã, só para tirar uma foto das alunas que causavam confusão na praça que causa confusão.

Porque “lembranças, lembranças, risadas, risadas” sempre é legal.

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Schlüssel zur Fröhlichkeit

Schrebergarten são pedaços de terra que o cidadão alemão aluga para brincar de jardineiro, plantar comida (árvores de geleia ou de bolo/torta) e beber cerveja durante o verão. Wladimir Kaminer é um autor russo radicado em Berlim que escreve críticas sociais envolvidas em ironia e comédia. Em um de seus livros ele compara a sua experiência no Schrebergarten da família durante a copa de 2006 e o ano que H.D. Thoreau passou na floresta. Engraçado porque ele toma uma experiência profundamente filosófica, preenchida de intenções e noções elevadas e compara com uma tarde de bebedeira no subúrbio de Berlim. “O que isso tem a ver com o blog?” se pergunta o sagaz leitor.
Bem, a mãe veio visitar e decorou o apartamento da criança. Necessário: peregrinação ao IKEA, força nas pernas para andar todo o IKEA e força de vontade para não sair comprando o estoque completo da loja de decoração (hem, estilo de vida, hem) sueca. A criança ganhou pratos, cortinas, cobertores e travesseiros, abajures, um escorredor, um sofá e um tapete. Tudo devidamente empacotado e acompanhado de um manual de instruções. Ela agora tem uma palheta de cores para a sua decoração. Com o tapete também chegou a convicção de “estar adulta” na cabeça da criança.  O tapete foi a gota d’água, por assim dizer.

Isso é tudo muito interessante, mas não é o objetivo do exercício. Para quem não sabe móveis do IKEA são extremamente simples de montar e só necessitam de uma ferramenta: a mítica chave do IKEA (e o, igualmente lendário, manual de instruções). Na saída do IKEA, onde é possível contratar o transporte, instalação ou a devolução das suas compras está pendurando um enorme cartaz amarelo. De longe a criança só conseguiu ler as palavras (em alemão, mas vamos fingir...): a chave para a felicidade.

Por um instante de delírio, provavelmente provocado pelas horas de perambulação no IKEA, a muita comida sueca oferecida dentro do IKEA (Kötbulaaaaaar!!!!!!!) ou a felicidade de conseguir decorar um apartamento de dois quartos por menos de mil reais, a criança realmente acreditou que uma pobre alma sueca havia encontrado a verdadeira (e derradeira) chave para a felicidade. Paralisada pelas visões do que havia de vir e animada para ler as palavras que mudariam o seu futuro a criança se aproxima do cartaz e lê, esperando algo completamente filosófico, preenchido de noções elevadas que irão mudar a sua vida. Em vez disso, ela se depara com os dizeres: guarde a sua chave IKEA e a use regularmente para apertar os parafusos em seus móveis. Assim eles continuarão seguros e estáveis durante mais tempo para lhe oferecer conforto.
A criança leu o cartaz esperando Thoreau e teve de se satisfazer com Kaminer. Leitores assíduos do blog saberão que autora não tem nada contra filosofia barata de botequim e considera muito as máximas dos bêbados. Afinal de contas o conselho oferecido no cartaz não é indigno de nota e realmente acompanhará a criança em seus futuros empreendimentos mobiliários.
Kaminer também comenta em seu livro que as professoras do colégio já sabem não se queixar aos pais do mau comportamento das crianças. Afinal de contas, a maior parte de sua conduta a criança deve aos seus pais, o resto foi aprendido com Harry Potter e O Senhor dos Anéis. Eu considero essas palavras profundamente verdadeiras, e se os axiomas absorvidos desses eminentes livros procedem, não há nada de errado em tomar uma máxima do IKEA e adotá-la para si.

Assim, deixo o caro leitor com o seguinte conselho: não deixe os parafusos dos seus móveis afrouxarem. 

Até a próxima!

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

domingo, 17 de novembro de 2013

Morgens wie ein Kaiser

Agora no comecinho do “horário de inverno” o sol está nascendo bem cedo, então mesmo não querendo eu acordo cedo. Sabe como é né... o quarto não tem cortinas nas janelas enooooormes e a vontade para ir na casa de móveis suecas comprar cortinas, também não dá as caras. E mesmo com cortinas eu acordaria cedo, por dois motivos. 
Primeiro eu tenho aulas às 8 da manhã de 2ª a 5ª e eu gosto de apertar o botão soneca do despertador. Além disso eu me acostumei a tomar café da manhã. Eu acordo, ligo o Wasserkocher, escovo os dentes, preparo a minha xícara de chá e a minha tigela de Müsli e volto pro quarto com o meu “desjejum”. Lá eu me envolvo no cobertor, ligo o computador e leio notícias/ ouço músicas/ ouço um capítulo de um livro/ vejo um episódio da série de ontem de noite. Depende do humor. Por exemplo: eu nunca leio notícias nas segundas...        
O esperto leitor se pergunta: por que ela perde preciosos minutos (quase uma hora inteira!) de sono com esse teatro todo? Os motivos são vários e ecléticos. Eu demoro a acordar e eu descobri que se o meu cérebro tem a chance de sentir Family Guy antes de ter que lidar com matemática, ele, muito agradecido, aceita as aulas de cálculo com menos reclamações e silêncios constrangedores.
            Segundo: eu gosto de chá preto, que tem muita cafeína, então eu não poderia tomar o meu chá de noite, antes de dormir. Eu também gosto de Buttermilch (leitelho para os que passaram pelo Alexandre Porte em Composição), uma bebida que não combina muito com o ensopado de carne no almoço, logo, outra bebida que eu tenho que tomar de manhã.  Uma bebida muita prática, pois pode ser comprada em caixinhas (tipo de toddynho) e bebida no ônibus à caminho da faculdade em dias que o botão soneca é ativado repetidas vezes...
            (A criança cresce, sai de casa, muda de continente e continua "n'O Toddynho nosso de cada dia nos dai hoje", tsctsc)
            Müsli, a minha penúltima razão para acordar cedo. O cereal matinal do Alemão, um amontoado de cereais, nozes e frutas que quando misturados com leite ou iogurte rendem uma gororoba que é, sem exageros, a epítome da alimentação humana civilizada. Ao mesmo tempo em que é crocante a sua mastigação não é estritamente necessária. Não é doce nem salgado, não dá trabalho de fazer, pode ser preparado em uma combinação quase infinita de sabores (inclusive chocolate!) e é saudável sem ter gosto de saudável (só aparência...).
            E, finalmente, a fim de me tornar realmente um indivíduo, um Mensch, eu preciso assinar um contrato social, em que eu aceito que de manhã eu comerei como um imperador, de tarde como um rei e de noite como um mendigo. Morgens wie ein Kaiser. Raramente (sexta e sábado) as minhas refeições se dão nessa ordem, e com essa riqueza.



Mas não custa nada tentar...

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Kurzgeschichten: Verão

Uma rapidinha para não desacostumar a postar (de novo...).
As minhas pessoas (sim, são minhas, sou possessiva ao extremo) no Rio postando fotos de termômetros, reclamando do calor, comentando que já está fazendo 40°C (exagero, são só 38°C...) e eu aqui...
-1°C de manhã, três camadas de roupa, sendo um delas térmica, tomando chá quente, pesquisando receitas de sopa e podendo usar o peitoril da janela para gelar as minhas garrafas, quando o espaço na geladeira acaba.
Até a próxima!

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Putzen


A pessoa tem as sextas feiras e cada segunda quarta feira livre. A pessoa usa as quartas livres para fazer o dever de casa, afinal de contas, na quinta ela só sai da faculdade às 18:45, que desastre se ela perde o ônibus de 18:50...
As sextas feiras a pessoas podia usar para fins de fim-de-semana. Para aprender a cozinhar, para fazer brigadeiro, tricotar, desenhar, escrever no blog... em vez disso as sextas feiras viraram dia de faxina. A pessoa acorda cedo, mesmo sem despertador (oh que moléstia!!), desce para o subsolo, onde ela põe a roupa para lavar, sobe, aspira o quarto, limpa a geladeira e o banheiro, guarda a roupa que está no varal desde a semana passada, lê dois capítulos do atual livro de cabeceira, desce, pega a roupa a limpa e (o horror!) pendura no varal.
Mais ainda: a pessoas comprou um aspirador de pó! A pessoa adora o aspirador de pó novo.  O aspirador de pó é o orgulho da pessoa. A pessoa cresceu.

Você sabe que a idade adulta se aproxima quando o programa de sexta feira é faxina. Você sabe que sua mãe te criou certo quando você não espera as meias limpas acabarem para lavar a roupa. Você sabe que mora sozinha e tem responsabilidades quando se conforma com a sexta. Você nem reclama mais quando tem que pendurar roupa. Oh, os sinais da idade avançada!
           
Nas sextas feiras a pessoa também aproveita e vai fazer compras no supermercado grande, que é mais longe. Durante a semana ela compra a Apfelschorle e a Buttermilch no Supermercado do outro lado da rua. A pessoa está participando do programa de fidelidade de dois supermercados diferentes... a pessoa está adulta, porque já sabe por qual faca e qual panela vai trocar os pontos fidelidade quando a cartela estiver completa.

            A pessoa está procurando receitas. Talvez na semana que vem ela se aventura a fazer gurjão de frango para comemorar os amigos que tem acesso a comidas de boteco (por favor roubem a receita do Alfa!!).
Por hoje é tudo pessoal!

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Em Potsdam

Agora eu cheguei mesmo. As malas estão abertas, o que não necessariamente significa que elas estão desfeitas, e FINALMENTE após duas longas semanas esperando, eu tenho acesso à internet de novo!! (glória, aleluia, amém!) (Sim, internet tem a mesma importância que religião na minha vida!)
Então eu prometo que amanhã ou depois eu volto a postar no blog. 
Enquanto o dia não chega, caros leitores fiquem com essa mensagem, de mim, para vocês: o outono é lindo...

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Trens


O irmão da autora adora aviões. Ele conhece aeroportos, sabe quais são as melhores rotas para voar, entende o jargão falado na torre.  Quando viaja, ele vai ao aeroporto da cidade fotografar os aviões, um hobby muito interessante chamado spotting (as fotos dos aviões são do irmão!). Quando criança o seu brinquedo favorito era um avião azul, durante a adolescência evoluiu para os simuladores de voo. A autora acredita que se um dia o piloto realmente sumisse, o irmão seria capaz de pousar o avião com o mínimo de instrução da torre e danos psíquicos aos passageiros.
Tendo dito isto; a autora morre de medo de avião, para eterno embaraço do irmão. Não é só de avião que a autora não gosta, dentre os seus medos também constam: túneis, salas apertadas e/ou escuras, metrôs, elevadores, labirintos e baratas. Não que ela seja medrosa, um dos seus sonhos de consumo é ir fazer bungee jumping na Nova Zelândia. Durante anos ela andou sozinha de noite pelas ruas do Rio de Janeiro, mas toda vez que se deparava com uma barata durante essas caminhadas, berrava que nem uma louca e saia correndo.
(Se a autora for questionada, ela dirá que avançou muito na questão “baratas”, oras daquela vez que viu uma no corredor, em vez de gritar histericamente para que o irmão matasse aquela criatura horrenda, simplesmente fechou a porta do quarto e se negou a sair, apesar de estar com sede.)
A razão para esse lero lero todo é a seguinte: hoje eu fui à Potsdam resolver burocracias na universidade. Eu viajei de trem, é claro. Existe algo de imensamente prazeroso ver a paisagem passar a quase 300km/h pela janela e ao fundo ouvir o leve zunido do poderoso motor (diesel ou elétrico??) do Inter City Express. ICE, ice, very, extremely cool, ou seja, trens = muito bom.
Os alemães podem reclamar da Die Bahn, realmente, os trens atrasam com extrema frequência, alguns vagões são velhos, os trabalhadores são mal humorados e as obras são intermináveis. A isso eu respondo, os atrasos são anunciados, você pode pedir para receber mensagens quanto ao status do seu trem. Na maioria dos casos, se o seu trem atrasa, a sua conexão ou uma equivalente, estará à sua espera. Alguns vagões são velhos, alguns TRENS são velhos, mas para quem testemunha o drama que é andar de trem na SuperVia ou tenta pegar o metrô no Rio, não se incomoda se banco do trem não reclina. As obras são intermináveis porque essa é a definição de manutenção, e eu prefiro construir linhas de trem a estradas, por motivos puramente pecuniários (também, a autora não possui carteira de motorista, hem, hem).
Quanto aos trabalhadores mal humorados, não tenho defesa. É uma espécie de alemão extremamente caricata, que não fala inglês, usa ou um bigode enoooorme ou um coque alto (dependendo da idade ambos) e aparenta constate pressa. Talvez isso se deva ao constate atraso da linha. Porém eu posso dizer que eles sempre foram prestativos (mesmo que a contra gosto) quando eu me perdia durante as minhas perambulações pela Alemanha. Se eu estou em um fim do trem e eu pergunto a funcionária aonde está o vagão X (que eu bem sei está no outro fim) eu sei que ela vai esperar até que eu alcance o um vagão para permitir que a viajem prossiga. E, por fim, eu sei que trabalhar com gente é extremamente exaustivo. Por isso eu perdoo o Schäfner que grita no meu ouvido até eu acoradar: “FAHRKARTEN! BITTE FAHRKARTEN!!". 

Assim fica fácil entender porque a "Die Bahn", como é chamada a Deutsche Bahn, é um dos empreendimentos alemães mais bem sucedidos financeiramente.

            Até a próxima!

terça-feira, 24 de setembro de 2013

Voltei!

Eu estudei em uma escola alemã a minha vida inteira. A minha mãe insistiu que eu passasse a minha vida escolar lá, ela teve que ralar muito e fazer muitos sacrifícios, mas ela fez questão. Durante um breve instante ela considerou me botar em um colégio militar (que glória seria andar a cavalo, marchar, vivenciar uma disciplina mais relaxada!),mas mudou de ideia antes mesmo de discutir a opção comigo.
Os motivos que ela dá são dois. O primeiro é que por ocasião da busca de escolas para matricular os seus pimpolhos, ela pediu ao então diretor da escola britânica se era possível fazer uma visita ao jardim de infância da instituição, ao que ela ouviu um mal educado e ressoante “não”. Muito desapontada, ela foi conhecer o jardim de infância da Escola Corcovado, logo na esquina do British.
O segundo motivo que ela dá é o Abitur. Para quem não sabe Abitur é tipo o vestibular da Alemanha, ele dura os dois últimos anos de escola e o resultado é vitalício. A minha mãe jamais se intrometeu na vida acadêmica dos filhos a não ser quanto ao Abitur. Ela fez questão que todos os filhos dela fizessem a bendita prova, porque era algo que nos possibilitaria estudar fora do país, quando, ou se, a hora chegasse.
Para mim a hora chegou.  Ano passado eu vim à Alemanha para testar se eu aguentava a saudade. Esse ano eu começo uma faculdade na Alemanha, um empreendimento que pode durar entre três e cinco anos, como informei o policial ao entrar no país.  Nas palavras de uma boa amiga, “falando que nem um adulto, eu vou começar uma nova etapa! Que frase tosca!”. Sair de casa, de verdade. Estudar matemática 1 e física 1 e 2. Assinar um contrato de aluguel, quem sabe, eventualmente, até alugar um apartamento que não é nos alojamentos da universidade...
A experiência do ano passado me mostrou o seguinte: faça um contrato de internet cedo, o Skype é NECESSÁRIO. Saia de casa pelo menos uma vez ao dia, mesmo que seja só para comprar um Döner, mesmo que esteja nevando, mesmo que esteja fazendo -18°C. Vá visitar um amigo quando você começar a se sentir só. Receba os seus amigos, vá com eles à piscina pública, ou cozinhe chilli con carne e salada de frutas para as meninas da sua Seminargruppe. Saiba que quando o bar tender do Irish te serve sem perguntar antes o que você quer beber, você fez uma nova amizade (felicidade!).

A água na Alemanha demora mais a ferver, a comida fica pronta mais rápida, use água desmineralizada para fazer o arroz (senão ele não fica soltinho) e deixe o feijão de molho à noite se você não tem uma panela de pressão. Tem leite moça no supermercado! Os alemães gostam de comer a batata frita do McDonald’s com maionese.  Use um casaco durante o outono. O outono é a época do ano mais linda.
Ao meu dedicado leitor, deixo um recado: voltei! Um beijo e um queijo.



Ich verbleibe deine, T

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Weihnachtsfeste


Hoje (ontem), dia 26, ainda é natal na Alemanha. Em München, Dortmund e Karlsruhe as pessoas estão aproveitando o dia enrolados em edredons considerando as sobras da ceia para o almoço de hoje. Na serra carioca eu estou aproveitando o sol e o calor na piscina e a minha mãe foi fazer as compras grandes na cidade. Hoje não é feriado no Brasil, as lojas abrem normalmente e mais tarde talvez eu vá cortar o cabelo.
As sobras da ceia provavelmente também serão aproveitadas no Rio. A rabanada, o brownie, a casa de chocolate, as nozes, o presunto e o Chester... às vezes eu tenho a impressão que as sobras da ceia de natal compõe as refeições na semana até o ano novo, até a nova ceia e suas respectivas sobras. Na Alemanha meus amigos se deliciarão com ganso, pato, bolo de nozes, biscoitos de gengibre e, ironicamente, tangerinas. Afinal de contas, devem-se comer coisas exóticas durante as festas de fim de ano.
Na verdade eu tinha uma frase perfeita para abrir o próximo parágrafo. O jeito como funciona esse blog é: de vez em quando, antes de dormir, a inspiração vem a mim e nasce um post novo e inteiro. Ontem me veio esse, mas o dia na piscina me distraiu e agora o post vai ficar assim, disjunto e desestruturado. Manter um blog é uma responsabilidade que eu não trato com a devida seriedade.
O ponto da questão é: no natal comemos muito, no ano novo comemos mais e prometemos comer menos no ano que vem, e, no final das contas, o que realmente engorda, são todas as sobras que comemos descontroladamente nos dias após a comemoração. Ou na cozinha durante a festa. Porque são raríssimas as festas que eu não termino discutindo causos e acausos com meus amigos na cozinha.
            O presente post eu termino comendo rabanadas de coco e leite condensado. Na varanda porque lá dentro tá muito quente.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

O espírito alemão


 Com a minha volta ao Brasil eu percebi com a Alemanha me germanizou em muito pouco tempo. Existem coisas "typisch deutsch" como comer Kraut e pão, assistir Tatort com seus amigos no domingo e planejar o seu dia antes de sair de casa. Tudo coisas que fiz, que (com exceção do Tatort) sempre fiz, então não hesitei em continuar fazendo. (Fonte dos hábitos alemães: http://venturevillage.eu/how-to-be-german-part-1)
O que estranhei é como eu agora tenho medo dos motoristas cariocas, pois dirigem muito mal. Como as coisas no Rio são caras, como tudo é atrasado e mal organizado. Como o Rio é quente. Como a cidade é barulhenta. Disso tudo eu já tinha noção antes, o contraste apenas realçou a percepção, entende?
Me surpreendeu a minha germânica aversão ao ar-condicionado, apesar do calor: como o ar fica seco e irritante às mucosas! Como o ar fica com um aroma desagradável e estranho de ar já respirado. Que zunido constante e desagradável produz a maldita máquina, como conseguirei dormir com esse barulho todo?
Eu estranhei quando na hora de contar, fiz um-dedão, dois-indicador, três-dedo do meio, quatro-anelar, como no filme do Quentin, sabe? Eu olhei para minha mão como se não fosse a minha, pois apenas alemães contam assim. Eu nunca tinha contado assim na vida! Aquilo não era de mim, era o espírito alemão baixando em mim.
O espírito alemão também me convenceu que no inverno eu só precisava lavar o cabelo a cada dois dias. Ele me ensinou a não jogar garrafa PET fora, a separar o lixo, a secar o cabelo, a usar casaco e a não andar descalça em casa. Hábitos que se mantêm no Rio, mesmo se alguns pareçam estranhos para o verão.
Demnächst: mais sobre o verão carioca. 
Derretendo e rezando por chuvas, até a próxima!

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Kurzgeschichten IV: Feriados


Alguns estados alemães comemoram “Todos os Santos”, outros comemoram “Finados”. Nenhum estado comemora ambos e em ainda outros, nenhum dos dois é comemorado.
Em alguns estados existem férias de outono. Em muitos não. Alguns têm férias na páscoa, outros no carnaval, ainda outros em pentecostes. As férias de verão são diferentes em todos os estados, para não provocar transito de férias nas Autobahnen.  Entre o natal e o ano novo, todos têm férias de inverno.
São poucos os feriados nacionais na Alemanha. Natal, Ano Novo, Páscoa e o dia da união alemã. Eles não comemoram Independência, República, Zumbi, São Jorge e Sebastião nem Nossa Senhora Aparecida. Eles não comemoram nenhum santo. Aqui não existe dia do mestre, do bancário e nem do comerciário.
Eu acho que é por essa razão que tudo fecha no domingo, durante a semana tudo fecha às 17 horas, no sábado ainda mais cedo e quartas de tarde o ponto é praticamente facultativo em muitas lojas. Os alemães precisam descansar da falta de todos aqueles feriados!
Então lembre que em breve você comemorará república e zumbi e aproveite bem o seu fim de semana comprido.
Bom Feriado!

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Kurzgeschichten III: Um Döner em Mannheim



O melhor Döner do mundo pode ser comprado na proximidade do Marktplatz de Mannheim (lê-se: mó-né-m), no bairro turco. Este Döner não é especial por causa da carne, bem temperada e suculenta, ou por causa da salada, fresca e crocante, nem por causa do molho, a perfeita combinação entre alho e pimenta.

Não, o que faz este Döner especial é o pão, uma massa absorvente de molho, macia e aerada com sabor de torrada. Aquele pão, crocante por fora e macio por dentro, compreende em uma pequena área circular tudo o que é justo e correto e bom no mundo.
Aquele pão é mágica, música e perfeição, ao seu alcance por apenas quatro euros.
Aquele pão é toda a prova que eu precisava que a dieta da proteína é algo errado e malévolo.