Schrebergarten são pedaços de terra que o cidadão
alemão aluga para brincar de jardineiro, plantar comida (árvores de geleia ou
de bolo/torta) e beber cerveja durante o verão. Wladimir Kaminer é um autor
russo radicado em Berlim que escreve críticas sociais envolvidas em ironia e
comédia. Em um de seus livros ele compara a sua experiência no Schrebergarten da
família durante a copa de 2006 e o ano que H.D. Thoreau passou na floresta. Engraçado
porque ele toma uma experiência profundamente filosófica, preenchida de intenções
e noções elevadas e compara com uma tarde de bebedeira no subúrbio de Berlim. “O
que isso tem a ver com o blog?” se pergunta o sagaz leitor.
Bem, a mãe veio visitar e decorou o
apartamento da criança. Necessário: peregrinação ao IKEA, força nas pernas para
andar todo o IKEA e força de vontade para não sair comprando o estoque completo
da loja de decoração (hem, estilo de vida, hem) sueca. A criança ganhou pratos,
cortinas, cobertores e travesseiros, abajures, um escorredor, um sofá e um
tapete. Tudo devidamente empacotado e acompanhado de um manual de instruções. Ela
agora tem uma palheta de cores para a sua decoração. Com o tapete também chegou
a convicção de “estar adulta” na cabeça da criança. O tapete foi a gota d’água, por assim dizer.
Isso é tudo muito interessante, mas não é o
objetivo do exercício. Para quem não sabe móveis do IKEA são extremamente
simples de montar e só necessitam de uma ferramenta: a mítica chave do IKEA (e
o, igualmente lendário, manual de instruções). Na saída do IKEA, onde é possível
contratar o transporte, instalação ou a devolução das suas compras está
pendurando um enorme cartaz amarelo. De longe a criança só conseguiu ler as
palavras (em alemão, mas vamos fingir...): a chave para a felicidade.
Por um instante de delírio, provavelmente
provocado pelas horas de perambulação no IKEA, a muita comida sueca oferecida
dentro do IKEA (Kötbulaaaaaar!!!!!!!) ou a felicidade de conseguir decorar um
apartamento de dois quartos por menos de mil reais, a criança realmente
acreditou que uma pobre alma sueca havia encontrado a verdadeira (e derradeira)
chave para a felicidade. Paralisada pelas visões do que havia de vir e animada
para ler as palavras que mudariam o seu futuro a criança se aproxima do cartaz
e lê, esperando algo completamente filosófico, preenchido de noções elevadas
que irão mudar a sua vida. Em vez disso, ela se depara com os dizeres: guarde a
sua chave IKEA e a use regularmente para apertar os parafusos em seus móveis.
Assim eles continuarão seguros e estáveis durante mais tempo para lhe oferecer
conforto.
A criança leu o cartaz esperando Thoreau e
teve de se satisfazer com Kaminer. Leitores assíduos do blog saberão que autora
não tem nada contra filosofia barata de botequim e considera muito as máximas
dos bêbados. Afinal de contas o conselho oferecido no cartaz não é indigno de
nota e realmente acompanhará a criança em seus futuros empreendimentos
mobiliários.
Kaminer também comenta em seu livro que as
professoras do colégio já sabem não se queixar aos pais do mau comportamento das
crianças. Afinal de contas, a maior parte de sua conduta a criança deve aos seus
pais, o resto foi aprendido com Harry Potter e O Senhor dos Anéis. Eu considero
essas palavras profundamente verdadeiras, e se os axiomas absorvidos desses
eminentes livros procedem, não há nada de errado em tomar uma máxima do IKEA e
adotá-la para si.
Assim, deixo o caro leitor com o seguinte
conselho: não deixe os parafusos dos seus móveis afrouxarem.
Até a próxima!


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